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Não pode haver um “mas” nesta história de Marega. Não há racismo suave ou grosseiro - só há racismo

É a desculpa perfeita, não é? Coisas destas, ditas e feitas assim, no “calor do momento”, são sempre sem querer, há que contextualizar e sobretudo relativizar, ter atenção ao “perfil” do homem, porque em Portugal isso do racismo simplesmente não acontece. Digam isso a Marega

Pedro Candeias

Stuart Franklin - UEFA

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Com que então há um “mas” nesta história. Marega foi insultado por um grupo de racistas durante o Vitória de Guimarães - FC Porto, fartou-se que lhe fossem atirados sons de macaco, forçou a substituição e saiu do jogo.

“Mas”, atenção, que ele já saíra a meio de um jogo no Dragão, quando jogava no Marítimo, e fizera mais ou menos o mesmo, quando jogava pelos vitorianos. Portanto, há ali um histórico de instabilidade no rapaz - um “perfil”, digamos assim - e estas coisas têm prudentemente de ser levadas em consideração, que este país é moderado, e não para racismos.

Pelos vistos é para racismos e não é de agora: Alan disse um dia que Javi García lhe chamou “macaco de merda” a meio de um Benfica - Braga. Na verdade, é apenas lógico que isto assim seja na lógica das probabilidades, porque o que aconteceu em Guimarães, acontece onde joga um futebolista com uma cor diferente da dominante. Os ingleses na Bulgária. Balotelli. Kevin-Prince Boateng. Lukaku. Marco Zoro. Paul Ince. O grande Ruud Gullit. Thuram.

Por norma, a justificação para estas imbecilidades repousa na natureza escapista do ato de ir à bola: as pessoas deixam a vidinha deprimente em casa, agarram-se ao cantinho da irracionalidade que têm dentro delas e disparam indiscriminadamente sobre quem está à frente.

Não é para levar a mal ou sequer a sério, é só futebol, diz o agressor; e o futebolista e o árbitro têm de se aguentar, porque ganham milhões que eu nunca ganharei, e acima de tudo têm um trabalhinho santo, que é jogar aos domingos, treinar uma horita por dia - e eu tenho este patrão. Daí que, sim, se forem negros são pretos, pretos de merda, macacos, gorilas, tudo serve para intimidar, distrair, sobressaltar.

É a desculpa perfeita, não é? Coisas destas, ditas e feitas assim, no “calor do momento”, são sempre sem querer, há que contextualizar e sobretudo relativizar, porque em Portugal isso do racismo simplesmente não acontece. Digam isso a Marega.

Quando limparmos o baço do espelho e nos reconhecermos como um país que também fez dinheiro e glória com o músculo escravizado dos africanos, que também violou, roubou e pilhou; quando, então, deixarmos cair esta máscara da suposta superioridade moral do nosso colonialismo, em comparação com outros, talvez cheguemos à conclusão de que não há um racismo suave e um racismo grosseiro. Só há racismo. Que tem de ser combatido, possivelmente com atos de denúncia e de coragem, como este de Marega, que deixou de fazer o que gosta para marcar uma posição. Agora, o resto do trabalho é connosco.