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Henrique Monteiro

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Ex-Diretor do Expresso

Sete recomendações práticas a propósito de Marega

Henrique Monteiro escreve sobre o caso Marega, propondo medidas e pontos de discussão para um problema que precisa de soluções estruturais

Henrique Monteiro

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O abandono do jogo contra o Guimarães por parte de Marega deve ser saudado e registado. É um grito contra o racismo que faz despertar consciências e põe gente em movimento para compreender e lutar por um desporto com fair-play e sem discriminação. Mas o racismo é apenas a ponta do icebergue do que se vê pelos estádios. É, com certeza, a face mais repugnante do ódio e do vandalismo impune a que se assiste em todos os recintos (ou quase). É difícil alguém ir ao futebol sem ter a certeza de sair de lá após ser ver envolvido nalgum desacato. Escrevo isto com experiência, pois mais de uma vez saí do estádio, assim como de Assembleias Gerais do meu clube, o Sporting, com escolta. As recomendações que aqui deixo são pontos para a discussão que devem existir e, quanto mim, pontos mais importantes do que saber se o árbitro agiu bem ou mal ou se as equipas deviam ter saído ou não. Porque não são manifestos de solidariedade (sempre bonitos e necessários), mas estruturais. Vamos, pois, ao que interessa.

1) Se sobre o gesto de Marega está tudo dito, falta ainda quase tudo fazer. Desde logo, as penalizações têm de ser muito mais elevadas (o Rio Ave pagou uma multa de 536 euros por insultos racistas dos seus adeptos a Renato Sanches, então no Benfica). Esta verba, mesmo para uma equipa modesta, é ridícula. Há que ter noção. Os clubes só serão deveras exigentes se lhes doer, de facto, ter adeptos assim. As multas hoje não são pesadas. Ainda em janeiro o Benfica foi multado em pouco mais de 3500 euros por uso de engenho pirotécnico e palavras dirigidas ao guarda-redes do Desportivo das Aves. O que significa 3500 euros para o Benfica?

2) Só com multas altas, diria mesmo, muito altas, os clubes se sentirão na obrigação de ajudar aos esforços para identificar os autores materiais dos atos ilegais ou antirregulamentares, de modo a que os adeptos respondam, também individualmente, por tais ações. Outra alternativa será as multas recaírem diretamente sobre os Grupos Organizados de Adeptos quando legalmente existam.

3) Não é possível que seguranças e/ou agentes policiais que permitem, por incúria ou qualquer outro motivo, a entrada nos Estádios de materiais impróprios não sejam, também eles, por algum meio sancionados. Deve ser possível saber por que porta se entra e quem fez a revista. No caso de haver irregularidades ou atos condenáveis durante a partida, o setor onde se deram, deve ser revistado também à saída. Também aqueles (cerca de 60 diz o secretário de Estado) identificados como impedidos de assistir aos jogos por terem cometido infrações, devem passar a hora e meia da partida numa esquadra da polícia.

4) Os clubes devem ser obrigados por lei a não discriminar positivamente nenhum sócio ou adepto, salvo por antiguidade (distinção do número de votos que alguns estatutos estipulam). Desta forma termina-se com as benesses às claques. Ninguém deve poder adquirir mais de cinco bilhetes em lugares contíguos. É uma forma usada na Inglaterra para diluir desordeiros nos estádios.

5) Os sistemas de votação em Assembleias Gerais dos clubes que disputam provas profissionais (I e II Ligas) devem ser sempre por voto secreto e, preferencialmente, eletrónico. Deste modo, os grupos de marginais que constituem parte das claques não poderão agir como guardas pretorianas de presidentes. Sabe-se que foi assim no Sporting, mas no Benfica, Porto e outros clubes não deve ser muito diferente.

6) O fair-play deve ser compensatório para o clube. Não pode haver apenas penalizações, deve-se encontrar um sistema de recompensas – sejam desportivas ou monetárias - para aqueles que conseguem níveis mais elevados de desportivismo.

7) Sendo os estádios de futebol locais públicos, a sua segurança deve ser tratada como um caso de segurança pública. A polícia deve intervir preventivamente (e não a bater) nas bancadas sempre que a ordem ou a segurança não estão asseguradas. Desde logo, quando são arremessados objetos ou tochas. Esse tipo de atuação raramente, ou nunca, se vê não se entende porquê. Os clubes têm de fornecer autorização tácita às autoridades para poderem repor a ordem e a legalidade em todos os locais dos recintos públicos.

Haverá, seguramente, mais e melhor medidas. Mas penso que estas seriam um bom começo. E uma forma de todos nós, as famílias, as pessoas decentes, poderem ir ao futebol tranquilos, sem receios e sem passar pelas vergonhas como as que ontem se viram em Guimarães e que mereceram o repúdio de todo o mundo.

*Presidente da Comissão de Fiscalização do Sporting em 2018 que promoveu a suspensão, destituição e expulsão de Bruno de Carvalho