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“Em Santarém ouvi muitas vezes ‘preto vai para a tua terra’. Quando fui a Cabo Verde, chamavam-me ‘tuga pé de chulé’ por não saber crioulo”

Nuno Delgado, antigo judoca medalhado olímpico nos Jogos de Sidney, confessa ter sentido a intolerância ao logo da vida e no dia-a-dia. E considera que o desporto é o meio certo para o combate ao racismo e outros preconceitos

Depoimento recolhido por Alexandra Simões de Abreu

JoaoLima

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Eu tenho episódios de racismo vividos no dia a dia, mas sinto que o racismo é apenas uma das formas de intolerância. Não é a única e o desporto em particular tem-nos ajudado bastante a perceber que esse fenómeno ainda existe e tem de ser resolvido.

O desporto tem sido, aliás, uma das maiores ferramentas para desmistificar esta ignorância que ainda existe dentro da mente humana. Eu tive uma situação na Alemanha onde me disseram: ‘Nunca imaginei ter um nazi, um negro e um israelita sentados na mesma mesa’.

Eu nasci em Lisboa e fui viver para Santarém onde comecei a praticar judo. Sendo uma cidade do Ribatejo, mais interior, onde não havia muitos negros, o judo acabou por ser uma maneira de eu me integrar com os miúdos da minha idade. E aí claramente havia um estigma e um preconceito muito forte relativamente às pessoas negras e ouvíamos constantemente ‘preto vai para a tua terra’. O curioso é que depois fui passar férias a Cabo Verde - eu falava português, não falava crioulo - e os miúdos lá chamavam-me ‘tuga pé de chulé‘. Lembro-me que olhei para o meu pai e disse assim: ‘Então, mas afinal o que é que eu sou?’. Se em Portugal dizem que sou preto e que tenho de ir para a minha terra, chego à minha terra e, independentemente da cor da minha pele, eles reagiam chamando-me ‘tuga pé de chulé’.

Isto para dizer que a nossa sociedade ainda tem muitos estigmas em relação àquilo que é diferente e é um sinal de alguma falta de cultura, no fundo, porque a minha família tem todas as cores. O racismo ainda faz parte da nossa cultura, é algo que tem de ser desconstruído. Mas há outras formas de intolerância; a religião, o próprio estatuto da mulher na sociedade, que é alvo de intolerância.

O ambiente desportivo apenas amplifica as taras da sociedade. No fundo, a mensagem que quero passar é que não é surpreendente que a sociedade ainda esteja a batalhar por resolver a intolerância. O desporto é talvez a melhor ferramenta para ajudar a combater essa intolerância e, portanto, temos que ser exemplares no cumprimento daquilo que são os valores do desporto. E o que se passou este fim de semana não cumpriu aquilo que são os valores do desporto; e em Portugal ainda não há ferramentas legais a exigir que as pessoas dentro dos recintos se comportem com os verdadeiros valores do desporto, como já existe noutros países.