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“Os adeptos do Feirense insultaram-me, preto para aqui, preto para ali, a tua mãe isto, macaco. Aconteceu no ano passado e há duas semanas”

Este é o depoimento de Edinho, que denuncia um caso que começou na época passada e voltou a suceder há semanas, quando foi a Santa Maria da Feira jogar pelo Cova da Piedade

Depoimento recolhido por Alexandra Simões de Abreu

TIAGO MIRANDA

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“Estou extremamente solidário com o Marega. Infelizmente esse tipo de atitudes e atos têm vindo a aumentar o que é um sinal de preocupação para todos nós que estamos no desporto. Há duas semanas vivi um episódio semelhante ao do Marega, num jogo contra o Feirense.

Eu saí a mal do Feirense, não joguei a última parte da época e os adeptos, que não sabem como as coisas se passam lá dentro, pensaram que eu andava a fazer corpo mole, que eu não queria, e começaram com as ofensas do preto, preto para aqui, preto para ali e a tua mãe é isto e aquilo, etc. Logo eu que tenho a preocupação de ser sempre um exemplo de profissionalismo.

Quando há duas semanas fui jogar ao Feirense receberam-me da mesma maneira. Confesso que até pensei em abandonar o campo como fez Marega, mas estamos numa fase em que a equipa precisa de mim, é uma fase complicada e eu não me podia dar ao luxo de sair do campo, tive de pensar nos interesses do clube, embora fosse uma coisa que me afetasse. Só que de alguma forma a nível psicológico já estava preparado para aquilo. Fiz o golo, não respondi, não festejei, até pedi desculpa. Mas continuaram os cânticos e as ofensas. Onde se incluíam ofensas racistas, como "macaco" e "preto", por exemplo. Desvalorizei.

O curioso é que um dos adeptos que me chamou nomes, estava perto da minha família, e quando eu saio ele vem ter comigo de forma educada e diz: "Então Edinho, como estás? Fazes falta". Eu vi que a minha mulher estava a fazer-me sinais para eu não falar. Mas não lhe respondi mal, porque ele estava a falar bem comigo. Depois é que a minha mulher me disse que ele estava perto dela e estava farto de chamar-me nomes.

Foi a primeira vez que vivi um episódio tão forte. Às vezes há bocas do género "corre" ou "não jogas nada", mas nada assim tão direto e com comentários racistas como agora. Nem na Grécia vivi isto desta maneira. Sempre fui bem tratado.

Acho que estes atos começam a ser preocupantes porque têm vindo a aumentar, não é um caso isolado. E o racismo tem vindo a aumentar, no geral, não só no nosso campeonato. Enquanto não houver em Portugal medidas drásticas como há por exemplo no Brasil e em Inglaterra, onde essas pessoas são banidas, dificilmente conseguimos resolver o problema.

Hoje em dia eu não seria capaz de levar o meu filho a ver um jogo de futebol numa bancada. Tenho a felicidade de ir para um camarote, mas se fosse para uma bancada seria incapaz de levá-lo porque não sinto segurança. E há uns anos via-se os pais com os filhos a ver os jogos, porque isto é um espectáculo e os miúdos veem-nos como exemplos. Não poder levar o meu filho ao futebol e estar descansado, é um caso a pensar.

A meu ver chegou o ponto em que tem de ser o governo, o Estado, a intervir. Não vai acabar tão cedo, mas tem que se dar um passo nesse sentido.”