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João Paulo Vilas-Boas

João Paulo Vilas-Boas

Vogal Comissão Executiva COP

Que formação para os treinadores de desporto?

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve João Paulo Vilas-Boas, vogal da Comissão Executiva do COP

João Paulo Vilas-Boas

Michael Regan

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Há muito que, felizmente, não tenho de me confrontar com males que me obriguem a visitar o médico ou o dentista, que não seja para buscar umas receitas para combater a hipertensão e a hipercolesterolemia. Sobra-me a sorte, porém, de ter tido de procurar serviços de engenheiros civis e arquitetos, quando me pude envolver numas quantas pequenas construções que me apaixonaram. Em qualquer dos casos, quando o fiz, quando o faço e quando o fizer, procurarei profissionais devidamente habilitados e certificados, procurando garantias mínimas de competência; e se tiver de me confrontar, mesmo nessas condições, com exercícios de manifesta incompetência, rapidamente recorrerei a um advogado devidamente habilitado, também, de toga e tudo, que defenda onde de direito os meus mais do que justos pontos de vista.

No universo desportivo, porém, as coisas não se passam sempre necessariamente assim; é curioso! Aqui, os bons fazedores são muitas vezes (ou as mais das vezes) considerados os melhores “ensinadores” (para não lhes chamar professores, nem treinadores): “monitores” dirão alguns, mas monitores que não monitorizam! Papagueiam como lhes valha as artes da linguagem o que interpretam do que fazem e de como chegaram a fazer aquilo que aparentemente fazem bem. Fazem tábua rasa da Pedagogia, da Didática, da Sistemática, da Metodologia, da Fisiologia do Exercício e do Treino, da Biomecânica, da Antropologia (cultural e física), da Psicologia, da Sociologia, da Anatomia, da Traumatologia. Fazem-no não por aversão a estes territórios, mas porque nunca os visitaram, porque os desconhecem, porque não sabem para que servem nem como lhes podem ser úteis. E a culpa não é deles!

Efetivamente nada disso é preciso para jogar bem à bola, para ser campeão de natação, ou para ganhar uma medalha no tiro com arco. Para isso é “só” preciso ter talento (que também se constrói com aquelas ferramentas estranhas…) e ser objeto de uma boa “engenharia” de virtudes desportivas, “cozinhada” com aqueles e alguns outros ingredientes por um “maître” devidamente apetrechado (leia-se: habilitado) para lidar com a enorme complexidade da tarefa. E ela é mesmo “enorme”, apesar de ser preciso alguma atenção e vontade para o perceber; é que o paciente não parece correr o risco de morrer a curto prazo (às vezes, sabe-se lá…), a osteopenia da mandíbula não deverá tornar-se evidente, nem a ponte vai cair. Confortavelmente, reduzimos a coisa ao “jeito” do praticante e à “sensibilidade” e “habilidade” do “ensinador”.

E pronto! No desporto, como seria nas artes médicas, parece bastar ter sido bom doente. E se acontece julgar-se que talvez não baste, sobrará se se passar por Vilar de Perdizes uns quantos fins-de-semana. Isso de profissões reguladas, certificadas e com exigências e responsabilidades que imponham formação universitária, não parece ser para aqui chamado. Isso é para coisas sérias, não para o desporto!