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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

De um momento para outro, a discussão fútil ou o penálti assinalado por causa da tal mão deixaram de ser importantes

O ex-árbitro Duarte Gomes escreve que o coronavírus colocou as coisas em perspetiva para todos os intervenientes no desporto: "Em situações-limite, o homem tem esta capacidade. A capacidade natural de dar às coisas a ordem certa, colocando-as no devido lugar"

Duarte Gomes

UEFA Pool

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A vida está recheada de coisas importantes mas nenhuma delas é mais importante do que a preservação da vida em si.

Não se preocupem. Não serei mais um a dissertar sobre o novo Coronavírus. E não serei porque, confesso, não percebo nada do assunto. Mas essa falta de conhecimento técnico-científico não me impede de olhar para o cenário atual numa outra perspetiva. Na perspetiva de cidadão, pai e chefe de família.

Nunca, em tempo algum, vivi algo parecido com aquilo que agora começamos a experienciar. Sou um privilegiado, confesso, porque nunca estive em cenários de guerra e nunca fui vítima direta de ataques da natureza. Nunca passei por situações extremas.

Esta é, portanto, a primeira vez que sinto esta sensação de preocupação crescente. Esta ideia de contenção, de alteração quotidiana.

O encerramento gradual de teatros e museus, bibliotecas e piscinas, universidades, escolas e colégios, estádios, pavilhões e recintos desportivos são pequenos sinais que nos transportam para uma espécie de realidade paralela. Uma que muitos desconheciam mas que parece ativar, em cada um de nós, o mais básico e primitivo instinto humano: o da sobrevivência.

De um momento para outro, a discussão fútil com o vizinho, o problema pendente com o patrão ou o penálti assinalado por causa da tal mão deixaram de ser importantes. Passaram para um plano inferior, microscópico. As coisas que até aqui tinham valor, deixaram de o ter porque valores maiores se levantam.

Em situações-limite, o homem tem esta capacidade. A capacidade natural de dar às coisas a ordem certa, colocando-as no devido lugar.

É como se ativássemos uma espécie de talento - um talento escondido, inato - que nos leva a priorizar e relativar tudo o que deve ser priorizado e relativizado. Assim. De um momento para outro.

Ainda bem que assim é.

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O que importa é que esta fase mais cinzenta - que iremos ultrapassar unidos, com disciplina e inteligência emocional - nos garanta lições importantes para o futuro.

Uma delas é que há coisas que não valem a pena. Não vale a pena perder tempo a ser miudinho, perverso ou mesquinho. Não vale a pena ser demasiado guloso, invejoso ou mauzinho. Não vale a pena ser ganancioso, poderoso ou tontinho.

A nossa humanidade é demasiado curta para ser desperdiçada com atitudes irrisórias, imorais ou desonestas. Somos demasiado valiosos para nos perdermos com alfinetadas e beliscões por causa de meia dúzia de tostões.

Esta verdade vale para mim, para si e para qualquer pessoa de bem. Vale, sobretudo, para quem tem impacto direto na vida dos outros. Para quem pode fazer a diferença. Para quem tem poder para influenciar todos os que o rodeiam.

Vale, por exemplo, para quem está na política, na justiça ou no futebol.

RONNY HARTMANN

É que são raros os momentos em que as circunstâncias da vida nos ensinam qualquer coisa. Vamos aproveitá-los. Vamos levá-los para dentro de nossas casas, para os nossos locais de trabalho, para as nossas vidas.

O senhor da mercearia leva mais dez cêntimos do que o homem da padaria? O adversário tem mais três penáltis a favor do que contra? A senhora da farmácia disse que o remédio faria efeito em quatro dias e ainda não fez?

Está bem. E depois? E depois?

Vamos deixarmo-nos de minudências. Temos uma vida que se perde a cada segundo. A cada sopro.

Vamos vivê-la de forma plena, com saúde, entretenimento e lealdade. Vamos vivê-la com respeito, tolerância e ética. Vamos vivê-la com felicidade, com verdade e em comunidade.

É nossa responsabilidade fazer mais e melhor. É nossa responsabilidade deixarmos as coisas melhores do que estavam quando as encontrámos.

É preciso saber usufruir, criando coisas boas, contribuindo para o todo, apoiando quem precisa. É preciso cuidar bem do presente, porque é no futuro que viverão as nossas crias e as crias que eles terão.

Não percamos tempo a sermos uns autênticos vigaristas, egoístas e ingratos. Não é um ato de inteligência nem é, sequer, um ato de esperteza.

É má-fé pura, ignorância e pequenez.

Não vale a pena. Vão por mim.

Não vale a pena.

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