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Elisabete Jacinto

Elisabete Jacinto

Presidente da Comissão Mulheres e Desporto do COP

A cobertura mediática do desporto feminino

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve Elisabete Jacinto, presidente da Comissão Mulheres e Desporto do COP

Elisabete Jacinto

FREDERICK FLORIN

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A propósito do Dia Internacional da Mulher, o Comité Olímpico de Portugal decidiu homenagear mulheres jornalistas que tiveram um papel importante na promoção do desporto no nosso País. Foram elas Cecília Carmo, Céu Freitas, Edite Esteves, Edite Soeiro (a titulo póstumo), Leonor Pinhão, Maria João Duarte, Natália Oliveira e Teresa Montserrat. Todas elas mulheres de um valor indiscutível.

Assim, neste dia de homenagem a mulheres jornalistas e tendo em conta os benefícios sociais da entrada da mulher no mundo do desporto, queremos salientar o grande contributo que os meios de comunicação social podem dar neste domínio.

A homenagem do COP

A homenagem do COP

Inês Gomes Lourenco/COP

Atualmente, o espaço e o tempo que é dedicado pelos Media ao desporto feminino é significativamente inferior ao dedicado ao masculino. Contudo, esta diferente atenção não é só quantitativa mas também qualitativa pois, para além de dedicarem menos tempo, menos artigos e menos espaço ao desporto feminino, nem sempre tratam as mulheres atletas nos mesmos termos em que o fazem com os atletas masculinos.

Não só lhes é dada menos atenção, como a forma como são tratadas e apresentadas é menos digna, quer em termos fotográficos, quer no tipo de linguagem utilizada. A ênfase não é dada ao seu desempenho desportivo, mas sim à sua aparência física, sendo muitas vezes fotografadas em posições ousadas, associadas a estereótipos de género, ou com uma imagem de submissão e, tantas vezes, a exibir emoções.

No que se refere à linguagem, são muitas vezes utilizados comentários que reforçam a desigualdade entre os géneros, pois em vez de se referirem às habilidades físicas das atletas, fazem referência à sua aparência física e graciosidade ou ainda ao seu papel de esposa ou de mãe. Para além disto, a mulher atleta é ainda julgada pela sua capacidade de se conformar com as tradicionais definições de feminilidade arriscando-se a ser alvo de críticas e a adquirir uma imagem sexual negativa.

Esta abordagem reforça a ideia de que o desporto não é um domínio feminino, o que não é aceitável na sociedade atual.

Ora, estamos certas de que este tipo de atitude por parte dos jornalistas, homens e mulheres, não é intencional mas apenas uma reprodução inconsciente dos estereótipos que foram perpassando na sociedade, segundo a ideia que o desporto é apanágio dos homens e uma representação da sua força, destreza e masculinidade… logo as mulheres não fazem parte deste grupo.

Assim, dado que os meios de comunicação social são responsáveis pela transmissão da herança social, transmitindo de geração em geração os valores, as normas e os princípios de cada cultura, eles são, em boa parte, responsáveis pela reprodução de estereótipos de género e pela não inclusão plena das mulheres no desporto. Contudo, ao noticiarem, fazem a sua própria reinterpretação dos acontecimentos desportivos, pelo que podem igualmente contribuir para a formação e transmissão de novos valores e novas opiniões, tornando-se agentes de mudança social.

Um primeiro passo para essa mudança passa pela consciencialização dos gestos discriminatórios na divulgação do desporto feminino, facto que se traduzirá numa significativa melhoria da sua cobertura jornalística.

Por outro lado, o facto do mercado ser predominantemente masculino, quando se trata de comprar jornais e revistas desportivas ou de assistir aos grandes eventos desportivos, torna-se um factor determinante no momento de escolher o número de modalidades e notícias a serem publicadas para os géneros feminino e masculino.

Porém, alimentar este ciclo é continuar a reproduzir estereótipos, contribuindo para uma sociedade que continua a discriminar, impedindo assim que uma atleta tenha nos meios de comunicação social o mesmo destaque que o seu colega masculino. É também recusar o acesso a um potencial mercado que constituiu mais de metade da população portuguesa.

É, pois, de extrema importância que os Media criem mecanismos que evidenciem uma aceitação global da mulher no mundo do desporto.

Um tratamento igualitário terá, seguramente, repercussões no aumento do número de jovens e mulheres envolvidas, de onde resultará um maior conhecimento e um aumento da cultura desportiva.

Dado que a grande popularidade do desporto se deve à atenção que os Media dedicam a este fenómeno exercendo uma poderosa influência sobre todos os domínios da vida social, desafiamos os meios de comunicação social portugueses e todos os seus intervenientes a darem o seu contributo através de uma cobertura mediática dos eventos desportivos de uma forma correta e imparcial no que ao desporto feminino diz respeito.