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Cláudia Minderico

Cláudia Minderico

Nutricionista do Comité Olímpico de Portugal

A alimentação e a excelência do atleta

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve Cláudia Minderico, nutricionista da Direção de Medicina Desportiva do COP

Cláudia Minderico

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Já Pitágoras na Grécia antiga defendia que os atletas deviam ter uma alimentação específica para atingir as suas façanhas olímpicas. Em vez da dieta tradicional mais rica em hidratos de carbono com figos, cerais e queijo, Pitágoras introduziu alimentos ricos em proteína como a carne.

Nos tempos modernos, de modo a otimizar os seus desempenhos, os atletas são assediados por diferentes padrões alimentares, como as dietas vegan, paleo, ceto e alimentos pobres em hidratos de carbono.

Atualmente, considera-se que um padrão alimentar de excelência envolve diversidade de práticas alimentares, permitindo sustentar o treino e a competição, considerando os três pilares da nutrição desportiva: especificidade, periodização e personalização.

Afinal, o que é que os atletas devem comer? Esta especificidade resulta do tipo de esforço, isto é, das necessidades metabólicas das diferentes modalidades desportivas. Por exemplo, se se trata de um jogador de futebol, que realiza repetidos sprints de alta intensidade, este tem de ter especial atenção à ingestão de creatina, de forma a repor as reservas musculares de fosfocreatina entre sprints. Em provas de meia-distância de poucos minutos, a subida de acidez muscular é um problema que pode ser mitigado pela ingestão de bicarbonato de sódio ou beta-alanina.

Quanto à periodização, a nutrição tem de acompanhar os objetivos do treino, considerando que todos os dias são diferentes. O atleta talvez necessite de uma maior ingestão de hidratos de carbono e calorias num dia de treino intenso, em comparação com dias de treino mais leve.

Uma outra forma de periodização nutricional envolve a disponibilização deliberada de poucas reservas de energia, que vão promover maiores e melhores adaptações ao nível celular. No entanto, aumentam o stresse, desenvolvendo o risco de doença e de fadiga, pelo que esta estratégia só traz benefícios se for periodizada.

A nutrição desportiva mudou muito nos últimos anos. Personalizar a alimentação dos atletas de elite é primordial, uma vez que estes são diferentes de todos os outros atletas, não apenas porque treinam mais, mas também porque têm traços genéticos específicos para a modalidade, pelo que não respondem da mesma forma que a maioria dos atletas. Esta personalização deve considerar as expectativas, as experiências anteriores de sucesso e insucesso e também a interação específica das biomoléculas existentes na alimentação com o organismo de cada um dos atletas. Por exemplo, a suplementação com o sumo de beterraba, que aumenta a capacidade de captação de oxigénio, não é tão eficaz nos atletas de elite, devido à diferente composição das suas fibras musculares resultante do grande volume de treino.

Em conclusão, uma alimentação de acordo com os três pilares da nutrição desportiva, ser específica, periodizada e personalizada, pode não tornar um atleta mediano num atleta de elite, mas, garantidamente, se não assegurar estes princípios, o atleta que poderia vir a ser de elite nunca passará de um atleta mediano.