Tribuna Expresso

Perfil

Opinião

Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

A reflexão e o otimismo de Duarte Gomes: esta é uma oportunidade de ouro para nos tornarmos almas mais bonitas

O ex-árbitro Duarte Gomes não tem dúvidas de que irá ficar tudo bem, se tivermos vontade para tal: "Esta é uma oportunidade de ouro para mudarmos, para nos tornarmos almas mais bonitas, gente exemplar, dona de atitudes nobres e altruístas. Vamos todos precisar do melhor de cada um"

Duarte Gomes

Kai Schwoerer

Partilhar

Sei que não é fácil numa altura destas falar em reflexão e otimismo.

O momento é de incerteza e, se o presente em si é uma incógnita, que dizer então do futuro? Quando é que tudo isto vai passar, a sério? A sério mesmo, sem medo de voltarmos a abraçar os nossos ou de viajar livremente, sem restrições? Como estará a nossa força interior e a nossa autoestima, nessa altura? Que futuro nos espera?

A estas questões, juntam-se muitas outras: será que a economia mundial mergulhará num pântano profundo, como prevêem a maioria dos especialistas? Será que a crise que aí vem levará, de facto, ao aumento exponencial do desemprego, ao ponto de termos muito mais pobreza e criminalidade?

E as pessoas? Quando isto passar, elas serão as mesmas, exatamente iguais ou estarão diferentes?

Mudarão parte dos seus hábitos, da sua forma de estar? As prioridades serão as mesmas ou outras? E o seu comportamento em relação aos outros, a sua ligação a terceiros, a sua ética e conduta... serão exatamente iguais ao que eram?

São demasiadas questões, a que só o tempo responderá... a seu tempo.

Não me parece muito difícil de acreditar que a conjuntura será complicada, sim. Haverá empresas a fechar, marcas a perder poder, áreas de atividade a reequacionar estratégias. Banca e setor das comunicações, imprensa e futebol serão duramente penalizados. Tal como esses, muitas outros setores sofrerão fortes revezes.

Isso significará, de facto, o aumento desenfreado do desemprego, com tudo o que de muito mau isso acarretará em termos económicos e sociais.

Mas, neste momento, penso que a única solução é pensar nas coisas de forma positiva, faseadamente, passo a passo.

O mais importante, na verdade, é chegarmos lá. É estarmos vivos e termos saúde para podermos enfrentar qualquer tipo de tempestade que surja no horizonte.

O mais importante é termos energia para lidar com tempos bem difíceis e desafios gigantescos.

Sabem, a história joga a nosso favor.

A humanidade já superou epidemias globais assassinas, desastres naturais catastróficos e conflitos mundiais devastadores. Hiroshima é, dentro dos piores, um dos melhores exemplos: depois de totalmente dizimada pela Little Boy (em 1945), voltou a ter o mesmo número de casas e habitantes apenas 13 anos depois!

As 200 mil baixas, a destruição total de mais de 90% da cidade e o buraco dilacerante deixado no coração de cada japonês não os matou: fê-los renascer. Renasceram movidos a raiva. Lutaram com uma força interior que desconheciam ter. Lutaram e, perdendo, ganharam.

Às vezes, é preciso cairmos no buraco para percebermos que só com entrega, resiliência e superação conseguimos trepar para fora dele. E é aí, nesse ponto, que entra este nosso incrível instinto de sobrevivência.

Por cá, faremos exatamente o mesmo. Não tenho a mínima dúvida disso. Está-nos no sangue. É-nos inato.

É certo que a recuperação será longa, exigente e terá danos colaterais gravíssimos, mas infelizmente não há outra alternativa. O caminho é acreditar, lutar e entregar tudo, mas tudo mesmo, para que o futuro dos nossos filhos seja aquele que eles merecem. Por eles e sobretudo por eles, temos todos a obrigação de remar para o mesmo lado e enfrentar tudo e todos, sem medos nem temores.

As minhas dúvidas maiores, confesso, estão nas pessoas. Na sua qualidade. Na sua essência, na forma como podem crescer e aprender com tudo isto.

Esta é uma oportunidade de ouro para mudarmos, para nos tornarmos almas mais bonitas, gente exemplar, dona de atitudes nobres e altruístas. Vamos todos precisar do melhor de cada um.

Se há algo que este vírus nos ensinou é que a Natureza, quando quer, precisa apenas de meia dúzia de dias para nos pôr no lugar. De vez em quando, dá-nos um valente puxão de orelha, só para nos relembrar que andamos a tratá-la mal há demasiado tempo. E quando isso acontece, não há nem brancos nem pretos, nem ricos nem pobres, nem fortes nem fracos. Ela trata de repor a ordem e dizer-nos que somos todos iguais.

Temos um destino certo ao nascer, que é morrer. Isso não é constatação fatalista nem deprimente, é a mais pura das verdades. É o ciclo da vida de qualquer ser vivo. O que importa cada vez mais é aquilo que fazemos nesse intervalo.

Não vale a pena ser ganancioso. Não vale a pena ser aldrabão. Não vale a pena ter mais poder momentâneo. Não vale a pena ser mau, vingativo ou mentiroso. Não vale a pena recorrer a crimes para ter mais do que os outros. Não vale a pena distribuir desdém, egoísmo ou arrogância. Não vale a pena armadilhar, espezinhar ou humilhar.

Maior, muito maior do que qualquer boçalidade provisória, é aquilo que podemos ser, fazer e acrescentar.

Esta mensagem é dirigida, em particular, a quem se revê, em silêncio, em qualquer uma das condutas anteriores. É porque há, de facto, muita gente assim.

Um conselho de borla de quem não tem telhados de vidro e dorme tranquilo: aproveitem este período para se encontrarem. Reflitam. Equilibrem-se. Reposicionem prioridades. Desliguem-se de trivialidades. Vivam sim, intensamente, alegremente, ferozmente mas com princípios, com humanismo, com caráter.

Deixem que a história vos recorde pelos melhores motivos.

Vai ficar tudo bem.