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Marco Alves

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Diretor de Missões e Preparação Olímpica do COP

Jogos Olímpicos: os 100 dias… que afinal serão 464

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve Marco Alves, chefe de missão a Tóquio 2020

Marco Alves

BEHROUZ MEHRI

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O tema que vos trago não é novidade, nem tão pouco interessante para todos aqueles que na próxima semana iriam entrar na contagem decrescente dos 100 dias para os Jogos Olímpicos Tóquio 2020.

Atletas, Treinadores, Federações e Comités Olímpicos de todo o mundo, que tanto investiram nesta preparação olímpica, vêem agora adiado por um ano a sua participação nos Jogos.

A situação em que o mundo se encontra, o estado pandémico que está a forjar a nossa história, faz-me recordar uma passagem dos Lusíadas em que Luís Vaz de Camões refere que um fraco Rei faz fraca a forte gente.

A liderança do Movimento Olímpico tardou em anunciar este adiamento e com isso enfraqueceu todos aqueles que norteiam a sua vida pelos valores que o desporto e o olimpismo celebram.

Nem que por momentos, todos aqueles que fazem parte desta família olímpica temeram pela sua segurança, uma segurança diferente daquela que levou ao cancelamento de três edições dos Jogos (Tóquio esteve envolvido numa delas), mas uma segurança para a qual o mundo não tem ainda uma resposta.

Em janeiro de 2020, aquando daquela que julgávamos ser a última visita técnica a Tóquio, tivemos a oportunidade de visitar o Museu Olímpico do Comité Olímpico Japonês. A forma atroz como a edição de 1940 é remetida para um canto não traduz a dimensão de uns Jogos, nem tão pouco a importância que os acontecimentos à escala global impactam na organização do maior evento desportivo.

Em 1938, por ocasião da Segunda Guerra Sino-Japonesa, Tóquio devolveu a atribuição dos Jogos ao Comité Olímpico Internacional. Por sua vez, entregues a Helsínquia, os Jogos viriam a ser cancelados devido à II Guerra Mundial.

Mas a decisão desta vez foi diferente. O Comité Olímpico Internacional optou não por cancelar, mas sim por adiar os Jogos, abrindo dessa forma um novo capítulo na história olímpica.

Vários números contribuíram para esta decisão:

· Aproximadamente 70% dos Atletas só participa numa edição dos Jogos;

· 57% dos cerca de 11.000 Atletas que irão participar nestes Jogos já tinham garantido a qualificação;

· A organização do calendário desportivo internacional, nomeadamente das 33 Federações Internacionais, tem como referência a celebração dos Jogos Olímpicos;

· Desde a candidatura até à organização de uns Jogos decorrem 10 anos de investimento e de trabalho na cidade que os acolhe;

· Mais de 200.000 pessoas iriam ser acreditadas para que a realização dos Jogos fosse uma realidade;

· Em Tóquio foi construída uma Aldeia com 18.000 camas;

· Foram construídas/contratadas 43 instalações desportivas, para além de todos os espaços de apoio à organização dos Jogos;

· Foram contratados todos os serviços de apoio a Atletas e Treinadores para o período dos Jogos que vão desde o catering (3.000.000 de refeições só na Aldeia Olímpica), aos transportes (2.000 autocarros), ao alojamento (46.000 quartos de hotel bloqueados)…

· O evento seria divulgado por mais de 25.000 jornalistas, repórteres de imagens e outros representantes de meios de comunicação social;

· O cumprimento dos contratos com os 14 Worldwide Partners do Comité Olímpico Internacional e dos 67 parceiros locais que tornam possível a organização dos Jogos;

· Os milhões de espetadores que adquiriram bilhetes para as 750 sessões desportivas destes Jogos.

Por tudo isto, Tóquio 2020 irá manter-se, agora em 2021, e esta era a única solução possível.

Os tempos não são fáceis e talvez nunca tenha feito tanto sentido avaliarmos, no contexto desportivo, o efeito borboleta de Edward Lorenz como parte da teoria do caos. Neste caminho longo, árduo e de muito trabalho que é a preparação olímpica, vamos assumir que o adiamento abriu a possibilidade de refletirmos, identificarmos as oportunidades e definirmos as estratégias para melhorar aquilo que fizemos no último ano, mas sempre, sempre em segurança.

Até já, Tóquio!