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Rui Santos

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Comentador desportivo

O Nacional chegou-se à frente apenas porque quer subir de divisão. Estaremos a assistir à consagração da esperteza saloia (por Rui Santos)

Rui Santos retoma o tema do regresso aos treinos da primeira equipa profissional (Nacional) que decidiu fazê-lo à margem de uma posição concertada, defensora da verdade desportiva. O comentador da SIC diz que o decreto-lei 2-B/2020 é um paraquedas… perigoso

Rui Santos

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Como aqui escrevi no passado fim-de-semana, na sequência do anúncio do regresso do Nacional aos treinos - o primeiro clube do quadro profissional a fazê-lo, em pleno estado de emergência - ninguém deseja a paralisação de qualquer atividade económica, o país precisa de retomar as suas dinâmicas normais e o futebol não foge à regra.

Às vezes, pelo que ouço e vejo, ainda me parece existir muita gente que não assimilou em absoluto o momento ditado pela propagação da Covid-19 e o futebol em particular, dentro e fora, não conseguiu achar o tempo e o modo adequados para responder à crise.

O discurso tem sido péssimo e errático. Da FIFA para as confederações e das confederações para as federações, e destas para as respetivas Ligas, quando há transparência e verdade na comunicação, o que nem sempre acontece…

Não está, pois, em causa a vontade de se recomeçarem os treinos, mas o 'timing' desse recomeço.

Para se acender a luz da responsabilidade e da solidariedade, não basta os multimilionários fazerem generosas doações para aparecerem e ficarem bem na fotografia

É preciso encontrar soluções comuns para reduzir o impacto negativo da paragem competitiva, principalmente junto dos clubes médios e pequenos, num tempo em que a ditadura das operadoras de telecomunicações se faz sentir em particular e contra a qual nenhum outro poder do futebol consegue competir.

O Governo, através do decreto-lei 2-B/2020 - um paraquedas perigoso - decidiu incluir os atletas de alto rendimento e também os atletas profissionais no quadro das exceções que o estado de emergência determina.

É uma decisão altamente discutível, mas é uma decisão política cujo significado será aquele que lhe quiserem atribuir. A mim ocorreu-me, primeiro, a palavra medo, mas admitamos ficar pela condescendência.

Quer dizer: o Governo abre a porta ao regresso das competições e sabe que, antes do jogo, vem o treino. Pelo que… abre a porta ao treino.

O poder político, mais uma vez, desempenha o papel de porteiro. Abre a porta e, depois, o que se passar dentro do 'estabelecimento futebol' já será um problema de quem o gere, a menos que esses gestores lhe deitem fogo, colocando em causa a segurança da comunidade em geral.

O futebol tem uma importantíssima função social quem nem sempre sabe usar.

Há, pois, neste processo, um problema de facilitação legal ou de condescendência legal.

Mas há outro, mais importante nos tempos que correm: de consciência cívica; de exemplo a que cada um nós se deve submeter, independentemente da profissão que desempenha; de priorização daquilo que é efetivamente vital e o que, sem nenhum tipo de discriminação, não o é.

O Nacional não resistiu à tentação de furar, legalmente, o momento de confinamento a que o país se propôs, sabendo três coisas:

  1. Que não iria suscitar qualquer reação corporativa da Liga;
  2. Que estava, ao invés, a antecipar e a cumprir a FASE 1 do documento patrocinado pela própria Liga, ainda teoricamente em fase de discussão.
  3. Que, ao contrário do que diz Rui Alves, quando fala de um 'lobby' que não quer ver as competições recomeçarem, o 'lobby' mais forte é aquele que o Nacional representa.

O Nacional colocou-se do lado dos mais fortes, porque tem interesse nisso.

O Nacional tomou a dianteira apenas porque quer ver consumada a subida de divisão.

Quer dizer: quando o apelo ao confinamento era mais apertado, o Nacional decide avançar, com o salvo-conduto da legalidade, mas sem se perceber a vantagem prática da iniciativa, colocando à Liga um problema supletivo de ameaça à verdade desportiva, uma vez que é de elementar compreensão que o regresso aos treinos deveria resultar de uma posição concertada, para não haver clubes que se coloquem numa situação de vantagem perante outros.

A Liga, sustentada na orientação da UEFA, a qual atirou para o campo delas (das Ligas) a batata quente de gerirem os seus próprios calendários, de acordo em princípio com as orientações das autoridades sanitárias e também debaixo da recomendação de concluírem as competições correspondentes à presente temporada, não reagiu, e consentiu esta exibição do Nacional, que fica aliás para a história de todo este processo.

Onde fica a verdade desportiva?

Mas pior do que isso foi o choque revelado entre o representante da República na Madeira, Ireneu Barreto, defensor da inexistência de qualquer ilegalidade na tomada de posição do CD Nacional, e o próprio presidente do Governo Regional, Miguel Albuquerque, que falou em 'equívoco', uma vez que a "atividade de treino em grupo é proibida nos termos da lei que foi aprovada".

Qual é vantagem de um treino individual num campo de futebol? Quem define o que é 'treino individual' e 'treino coletivo'? Treino com dois elementos, mesmo distanciados, é 'treino individual' ou 'treino coletivo'?

A gestão desta crise é complexa? Sem dúvida. Começa a haver sinais de saturação perante a disciplina que os portugueses têm revelado, em regime de confinamento e isolamento social? Não é fácil. As ditaduras da economia e da psicologia estão a pressionar e a esmagar a prioridade sanitária?

O futebol entrar em campo - mesmo prematuramente - não será também uma forma de escape político? Com a consciência, também perigosa, que não se pode morrer da cura?

Esta crise é demasiado séria para ser encarada com leviandade e o maior perigo, mais uma vez, é que no final, entre os sobreviventes, assistamos ao triunfo e à consagração de uma certa esperteza saloia.