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Mariana Lobato

Mariana Lobato

Atleta olímpica de vela

O meu marido disse que eu estava maluca mas encomendei 1,5 km de elástico para coser cógulas

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve Mariana Lobato, atleta olímpica de vela

Mariana Lobato

Mariana Lobato trocou a vela pela costura, temporariamente

DR

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Quando, no dia 11 de março de 2020, vi o que nos esperava, começou o nosso isolamento voluntário. Com os nossos dois filhos, o Bartolomeu, de quatro anos, e a Carolina, de quatro meses, rumámos diretamente para a casa de campo dos meus sogros. Sei que sou uma sortuda por ter esta oportunidade. Temos jardim e espaço exterior, onde foi possível improvisar o meu ginásio.

Passados uns dias, e depois de nos adaptarmos a esta nova fase, fui acompanhando as notícias do nosso país. Uma coisa que me chamou a atenção foi a falta de proteção dos profissionais de saúde. Os que nos salvam estão em risco. E isto é grave, muito grave. Existem ambulâncias do INEM que não podem sair por falta de material. Saber que podemos correr o risco de não haver profissionais para nos assistir se um de nós precisar de assistência num acidente vulgar do dia-a-dia…

Como não consigo ficar parada a olhar, tentei ver como poderia ser útil neste momento que atravessamos.

Clive Mason

Quando tinha oito anos aprendi a costurar com a minha avó. Lembro-me do primeiro projeto que concretizei, um simples saco de pano, que ainda hoje utilizo. E desde então fui desenvolvendo os meus “skills” de costureira em várias áreas, inclusive nos barcos. Mas, neste momento, temos de estar em terra firme, e troquei o barco pela máquina de costura.

Entre amigos e familiares médicos fui percebendo quais as maiores necessidades de material de proteção. São as CÓGULAS. Não fazia ideia do que era isto, mas ao dia de hoje fazem parte da minha rotina diária. Pesquisei, perguntei e comecei o processo de produção com a minha sogra, que também tem uma máquina de costura. O primeiro pedido foi para o Hospital Santa Maria em Lisboa. Os pedidos de ajuda continuavam a chegar. E eu queria chegar a mais hospitais e ajudar mais profissionais de saúde.

Percebi o ritmo de produção e arrisquei. Encomendei um rolo (maior do que eu) de material apropriado certificado pelos médicos. O meu marido disse que eu estava maluca. Se calhar, um bocado, mas acredito que todos os grandes projetos têm uma pitada de loucura. O próximo passo seria perceber se a solidariedade das pessoas também estava em quarentena ou não, de maneira a contribuírem nestas despesas de material. É que isto não é como ir comprar uma saca de batatas: 225 metros ainda dão luta, e ainda faltava encomendar o elástico.

Lancei o desafio nas redes sociais, e tenho a dizer-vos que nós portugueses somos os maiores. Sentir o apoio e contribuição de todos não tem preço. Obrigada, Portugal!

Lá encomendei (só?) 1,5km de elástico que faltava para podermos fabricar as tão precisadas cógulas. Prevemos entregar mais de mil cógulas aos nossos profissionais de saúde.

Ao dia de hoje temos neste projeto dez costureiras incríveis que nos permitem aumentar o ritmo de produção, tal como pessoas a ajudar na logística de recolha e distribuição. Temos também delineado um planeamento para fazer a distribuição por todo o país: norte, centro e sul do país.

Esta cooperação de todos é fundamental. Sozinha eu não ia chegar tão longe. Este é um projeto de todos e para todos.

A nível pessoal tem sido sem dúvida um desafio diário. Gerir duas crianças, treino físico, e costurar. Mas o desporto ensinou-me que, com disciplina, tudo se consegue!