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O 25 de Abril e o '50 de Abril'

Rui Santos pega na polémica em torno da comemoração do 25 de Abril para dizer que a pandemia vai obrigar o futebol a encarar o futuro com o espírito democrático que não desenvolveu e patrocinou até agora

Rui Santos

Mike Powell

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O 25 de Abril e o que ele representa são inegociáveis.

A democracia é inegociável e a única coisa negociável é a discussão sobre a forma como a classe política administra o poder que os eleitores lhe conferem.

A liberdade é um bem tão precioso como o ar que respiramos. Se não fosse ela, nem havia discussão. O pensamento estaria ou amarrado ou atrás das grades.

E sobre isto nem mais uma linha porque, desde 1974, todos os dias são bons para celebrar o 25 de Abril.

Estávamos todos focados no combate ao coronavírus e surge a discussão em torno da celebração do ’25 de Abril’, na Assembleia da República.

De repente, algo que vinha sendo sublinhado como um momento importante de tréguas em relação ao combate político-partidário, exceptuando pequenos abalos sísmicos de linguagem, sem expressão, veio outra vez ao de cima a necessidade de alinhamento ideológico.

Não vejo o 25 de Abril como um problema de esquerda ou direita, porque não concebo viver em mais nenhum regime que não seja o democrático. O 25 de Abril libertou-nos da ditadura e só isso justifica a comemoração nacional.

O problema é que o 25 de Abril de 2020 acontece num momento particularmente sensível. Vivamos em estado de emergência. Tememos pelas nossas vidas e fomos todos sensibilizados para a necessidade de ficarmos em casa, para de alguma forma conseguirmos ter a sensação (sempre questionada) do controlo da pandemia.

A Assembleia da República também passou a funcionar em moldes diferentes (com menos deputados) e Rui Rio até chegou a dar um murro na mesa (do seu partido) por causa das indisciplinas e da quebra de exemplo junto dos eleitores.

Por mais que os nossos políticos se esqueçam disso, vivemos um tempo distinto. Um tempo grave. De incerteza e de ameaça, não compaginável com querelas político-partidárias. Pelo que este braço-de-ferro, entre a esquerda e a direita, é absurdo.

Absurdo e contraditório. Porque se se pede ao país para estar confinado — em pleno estado de emergência — a Assembleia da República, como órgão de soberania, deveria ser o primeiro a dar o exemplo.

E o exemplo seria uma representação mínima, simbólica, sob o alto patrocínio do Presidente da República.

Esta comemoração do 25 de Abril transporta-me para o futebol. Quer dizer: o discurso é todo ele dirigido para a prioridade sanitária e para o isolamento social mas depois lá vêm as excepçõezinhas da praxe, umas amplamente justificadas, outras nem tanto. Mais valia assumirem perante todos: não aguentamos mais isto (nomeadamente nos planos económico e psicológico), e, mesmo que tenhamos de fazer algumas figuras ridículas, como o dos treinos individuais supostamente assépticos, temos de correr riscos.

Os clubes não poderiam esperar que o estado de emergência fosse levantado, por uma questão de consciência e solidariedade colectiva? A Liga não deveria ter estabelecido uma data para o regresso, em igualdade de circunstâncias?

Vamos comemorar, todos, acredito, o 25 de Abril e aquilo que significa. Não o comemorar da forma tradicional, nas ruas ou no Parlamento, não lhe rouba qualquer dignidade. A dignidade do 25 de Abril ninguém lha tira. É imorredoura e inegociável.

Como o 25 de Abril chegou muito lenta e ligeiramente ao futebol, e agora que a pandemia vai obrigar a uma revolução no sector, espero que seja possível, a breve prazo, e perante os novos desafios, celebrar uma espécie de '50 de Abril'.

O futebol precisa (em dobro) da democracia, mas também precisa que os partidos — nesta fase de emergência — não se portem como se estivessem nos recreios, até porque também esses estão confinados.