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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

E se houvesse um bate-papo descontraído entre árbitros e jogadores antes do início dos jogos? Limpava fantasmas do sótão (por Duarte Gomes)

O ex-árbitro Duarte Gomes tem uma sugestão a fazer: se há uma reunião entre árbitros e delegados antes dos jogos, porque não deve haver também uma conversa mais informal com jogadores e treinadores? "Humanizava, incutia boa energia, limpava fantasmas do sótão", explica

Duarte Gomes

Barrington Coombs - EMPICS

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Uma sugestão para quem de direito refletir: porque não permitir que os árbitros dêem uma palavrinha rápida a jogadores e técnicos, antes do início de cada jogo?

Vamos tentar perceber o que acontece agora.

O procedimento é igual em quase todas as ligas profissionais. É também o mesmo em jogos oficiais da UEFA e da FIFA: antes de cada partida, é realizada uma reunião técnica, liderada pelo representante máximo do organizador (chamemos-lhe delegado ao jogo) e em que estão presentes elementos das duas equipas, árbitros, força policial, diretores de campo e de segurança, equipas médicas, etc.

Esse evento é importante. Serve para ultimar pormenores relativos ao jogo. Ao antes, ao durante e ao depois.

É nessa reunião que são esclarecidas todas as questões e retiradas todas as dúvidas: definem-se quais os equipamentos que jogadores, árbitros e suplentes deverão utilizar; estabelecem-se regras relativas à entrada, em campo, de "maqueiros", médicos e massagistas; fala-se sobre o comportamento expectável nos bancos técnicos e sobre a conduta esperada dos "apanha-bolas; define-se o cumprimento rigoroso dos horários (countdown) e desenha-se planos de emergência em casos atípicos, como invasões de campo ou arremesso de objetos para o relvado. No fundo, procura-se antecipar qualquer tipo de cenário que possa ocorrer.

Regra geral, nesse evento nunca estão presentes nem treinadores nem jogadores.

Não porque estejam proibidos, porque não estão. Aqui e ali, aparece um ou outro adjunto ou até um ou outro treinador principal (sei, por exemplo, que o mister Manuel Cajuda faz sempre questão de estar presente). Mas isso é raro. É muito raro. A pergunta é... porquê?

Matthew Ashton

É certo que são ali tratadas algumas questões que nada têm a ver com a dinâmica do jogo, em si. Questões laterais que ultrapassam largamente o que acontece nas quatro linhas.

Mas também é certo que é aquele é o único momento em que o árbitro aborda assuntos de índole mais técnica: questões, por exemplo, viradas para a forma como irá dirigir o encontro, como pretende lidar com os jogadores, o que espera dos elementos oficiais ou como tenciona aplicar as regras.

Sendo assim, não seria de todo o interesse que árbitros, jogadores e treinadores pudessem ter dois, três minutos para conversarem? Para limarem arestas e retirarem dúvidas de última hora? Para trocarem meia dúzia de ideias, em meia dúzia de segundos, de forma clara, aberta e franca? Descontraidamente?

Parece-me que sim.

II - Sugestão

Passariam a existir dois momentos distintos. Se preferirem, duas "reuniões". Uma formal, outra (muito) informal.

A primeira é a que já existe. Aquela que trata de assuntos mais marginais ao jogo.

Essa não teria a presença nem de técnicos, nem de jogadores nem da equipa de arbitragem. Poderia estaria presente o 4º árbitro (o que já acontece com frequência) para resolver assuntos de ordem mais operacional e/ou logística.

A segunda - a ser introduzida - passaria a ser o tal momento informal entre árbitros e treinadores/jogadores.

É certo e sabido que o balneário das equipas é o seu templo sagrado. É a sua zona de conforto, o seu refúgio privado, a sua casa no estádio. O local onde tudo é falado e preparado, individual e coletivamente. Certo.

A ideia aqui não seria a de quebrar essa rotina, essa privacidade. Pelo contrário.

O que se pretende é aproximar uns e outros, antes que tudo aconteça.

Aqueles dois, três minutos de conversa franca e aberta ajudariam a esclarecer pequenas dúvidas, mas sobretudo a reforçar a confiança entre uns e outros.

Mais do que uma mera abordagem técnica, aquele seria um momento de descontração e aproximação, num registo tranquilo, leve e agradável.

O ambiente pré-competitivo costuma ser tenso para todos, com forte carga emocional. Há muito em jogo, em cada jogo.

Até por isso, parece-me fundamental que todos tenham uns segundos para arejar, conversar e perceber melhor a missão que cada um tem que desempenhar.

Repito: estou a falar de uma conversa informal, rápida e pacificadora. Algo não intrusivo, sem solenidade nem rigidez. Uma espécie de "quebra-gelo".

O caro leitor pode não ter noção, mas não raras vezes há, antes de cada jogo, um ambiente pesado, devido a jogos anteriores, que podem ter tido expulsões discutíveis ou decisões polémicas. Por vezes, há assuntos em aberto, questões que ficaram por encerrar.

Até por isso esse momento é importante.

Serve, sobretudo, para mostrar que o que está para trás, para trás ficou. Sem ressentimentos nem passivos. Sem predisposições negativas.

Seria win/win. Humanizava, incutia boa energia, limpava fantasmas do sótão.

Acredito que o efeito placebo seria transcendente. Para todos.

No túnel de acesso, no relvado e durante o jogo, não haveria memórias de momentos maus. Estaria tudo esclarecido, tudo falado, tudo sanado. Tudo exorcizado.

Não custa tentar, certo?

Fica a dica.