Tribuna Expresso

Perfil

Opinião

Ana Bispo Ramires

Ana Bispo Ramires

Psicóloga de desporto e performance

Vamos todos ficar bem. Será?

"Vai ficar tudo bem quando as nossas escolhas, as nossas ações (uma atrás da outra) evidenciarem que de facto queremos mesmo que fique tudo bem", escreve Ana Bispo Ramires

Ana Bispo Ramires

Cameron Spencer

Partilhar

Desde o início da pandemia de covid-19 os portugueses multiplicaram-se (e bem!) num conjunto de iniciativas de solidariedade, com o intuito de diminuir o impacto negativo que pudesse atingir o nosso país. Da ajuda comunitária entre vizinhos ao apoio aos mais frágeis ou à confeção caseira de máscaras de proteção, de tudo um pouco se tem visto confirmando, uma vez mais, a capacidade que a generalidade das pessoas tem para, em contexto de crise, dizer “estou aqui”.

Este, de resto, é claramente um traço do DNA dos portugueses – e ainda bem.

Contudo, agora que, de alguma forma, os portugueses vislumbram o final de um estado de emergência que os limitou na sua liberdade de movimentos (entre outras “liberdades”), começa-se a instalar alguma “ansiedade de normalidade”. Mas que “normalidade” será esta?

Vamos todos ficar bem?

Depende. Depende, acima de tudo, de definir claramente o que quer dizer este “ficar bem” – será voltar à normalidade conhecida, vivida pré-covid-19?

É porque, se for o desejo dos portugueses, voltar ao que era... não será certamente “ficar bem” – porque “bem”, não estávamos de facto. Num rápido relance sobre a sociedade que “éramos”, facilmente identificamos indicadores de um gravíssimo isolamento social – não imposto externamente, mas auto imposto nas escolhas repetidas dia após dia (ou não fossem, por exemplo, as redes sociais um mero “paliativo” para quem desconhece, em si mesmo, a capacidade para estar, de facto, com o “Outro”).

Identificamos, também, um enorme vazio emocional que se expressava através de um conjunto de atividades indiscriminadas, cuja principal função se prendia ou com a anestesia emocional (ex: séries e mais séries em catadupa até nos arrastarmos para a cama) ou com picos de adrenalina que, as gerações mais recentes, aprenderam a designar de “felicidade” (e não o é, de todo).

Estávamos isolados, anestesiados, desconectados de nós próprios, do Outro e do Mundo (enfim, da Comunidade em geral).

Uma pausa necessária

Não por causa do Covid-19, mas porque estávamos sem qualquer capacidade para travar este imenso rodopio em que nos encontrávamos enquanto pessoas e comunidade.

O período de isolamento social, imposto pela aplicação da medida de “estado de emergência”, trouxe a muitos portugueses (não todos, seja porque nem todos tiveram a oportunidade de parar, para garantir a subsistência das famílias e do país, seja porque o respeito pela medida de estado de emergência foi q.b.), uma oportunidade para, senão parar, pelo menos abrandar e reduzir os “automatismos” que nos empurram para um quotidiano onde, de consciente e voluntário, temos muito pouco.

Importa, por isso, fazer uso disso mesmo – da paragem. Parar para avaliar, parar para sentir em que medida a nossa vida corresponde ao que desenhámos para ela. Parar para redefinir quem somos como indivíduos, famílias, amigos ou membros de uma Comunidade.

Curiosamente, sente-se uma espécie de esperança no ar de que esta paragem, por si própria, possa ter trazido um nível de consciência diferente aos portugueses e, com ele, uma vontade de fazer diferente.

Discordo.

Temos memória curta. Mesmo em isolamento social, basta um raio de sol para encher as ruas de uma qualquer marginal – um raio de sol é razão suficiente para, de forma inconsciente, colocar em risco a vida do 1º andar...

Não vai ficar “tudo bem”. Não vamos ser “melhores” apenas e só porque estamos a vivenciar, em conjunto, este período inusitado da nossa história. Vai ficar tudo bem quando escolhermos consciência, quando entendermos que quando defendemos o outro nos defendemos a nós, enfim, vai ficar tudo bem quando, de facto, nos importarmos com o “outro” (e com a Comunidade onde nos inserimos) numa base diária e não “apenas” quando surge uma “crise” que pode bater à nossa porta.

Vai ficar tudo bem quando as nossas escolhas, as nossas ações (uma atrás da outra) evidenciarem que de facto queremos mesmo que fique tudo bem.