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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

As "espécies" do covid-19: fatalistas, comparatistas e o equilíbrio que mora ali pelo meio (por Duarte Gomes)

O ex-árbitro Duarte Gomes escreve sobre uma situação que é nova para todos, ainda que nem todos o queiram admitir, por estarem expostos "à nossa maior fragilidade: a da limitação humana"

Duarte Gomes

RONNY HARTMANN

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Não são fáceis, estes tempos.

Ao confinamento em casa e consequente distanciamento social, juntam-se também as dúvidas, o medo e a angústia sobre o que aí vem.

É normal que as pessoas se sintam assim.

Não nascemos para estarmos reféns de um inimigo invisível. Não percebemos porque perdemos, de uma assentada, parte da nossa liberdade, qualidade de vida e pequenos tudos que até ontem dávamos como garantidos. Por isso, tememos. O desconhecido mete sempre medo.

O adversário que enfrentamos é, de facto, insidioso. É inconstante e camaleónico. É imprevisível.

O facto de ainda não o conhecermos bem, baralha-nos. Expõe-nos à nossa maior fragilidade: a da limitação humana. Prova-nos que afinal não dominamos todas as variáveis da vida. Todas as variáveis que giram em torno de nós. Não da forma como pensávamos, pelo menos.

No caso concreto desta pandemia, isso demorará algum tempo e até que aconteça, a única alternativa é reajustarmo-nos. É redescobrir, redefinir e acreditar.

Pelo caminho, vamos especulando. Vamos dando palpites e fazendo suposições. Vamos desenhando conjeturas.

Apesar da boa vontade em cada opinião que lançamos para o ar, é importante termos (todos) a humildade de reconhecer que só sabe do que fala quem está intrinsecamente ligado ao problema. Quem o acompanha por dentro e de perto. Quem o vive diariamente, intensamente. Quem o estuda, analisa e monitoriza a sua evolução ao minuto. Ao segundo.

Tudo o resto é... especular.

É dar opiniões, baseadas em feelings pessoais ou análises de outros cuja opinião coincide com a nossa.

Também aqui temos que ter a humildade de perceber que, na verdade, quem está deste lado (do lado de fora) pouco ou nada sabe. Pouco ou nada percebe.

Por cada estudo científico, por cada amostra irrefutável, por cada opinião credível, por cada dado estatístico que uma opinião pessoal suporte, haverá sempre duas, três, dez opostas, que se baseiam em outras fontes "seguríssimas e irrefutáveis".

Nunca a internet esteve tão acesa na discussão do que não conhece.

É um desfile de prós e contras, com discursos ora brejeiros, ora extremados, ora eloquentes, ora irados. Há de tudo e para todos os gostos.

Tentei fazer um quadro-resumo dos vários tipos de opiniões e saiu-me isto.

Os "especialistas" em covid-19

Há os fatalistas. A malta do drama e do horror. Os apocalípticos. Para esses, isto é a pior desgraça que alguma vez já se abateu sobre a Terra. É a ira de Deus a mostrar a sua força sobre todos os humanos, profundos pecadores.

Os fatalistas acreditam piamente que os números publicados são completamente falsos. Há um complô de todos os governos mundiais - a pedido da OMS, essa organização maquiavélica ao serviço de poderes ocultos que visam erradicar parte da população da face do planeta - para ocultar informação e esconder corpos.

Para esses, tudo o que está a acontecer é, na verdade, bem pior do que parece. E vai piorar. Muito.

Os fatalistas só encontram conforto quando cruzam opinião com alguém tão ou mais fatalista do que eles. Os que pensam diferente são negligentes, não tem noção do que vem por aí abaixo.

Os comparatistas.

Os comparatistas moram nas antípodas daqueles. Acham, de verdade, que sabem tanto ou mais do que quem sabe de verdade. Analisam dados, recolhem informação e usam estrategicamente aquela que vai ao encontro do seu ponto de vista. Depois fazem-se valer de uma educação avançada e de uma boa capacidade de argumentação para tentar impingir, aos outros, a sua verdade. Tendem também a achar que quem pensa diferente é ignorante, embora sejam demasiado polidos para o afirmar. Adoram desfilar "conhecimento" só para receber reconhecimento.

Para os comparatistas, os números divulgados nunca são maus. Pelo contrário. Já as medidas que 80% dos Estados adotaram, consensualmente, foram exageradas. Garantem que a humanidade (toda menos eles) está a fazer uma tempestade num copo de água. Usam patologias distintas (cancros, malárias, enfartes, gripes suínas e afins) para tentar provar que este bicharoco é coisa pouca quando comparado com as mortes causadas por aqueles e tantos outros males.

Os equilibrados.

Moram no meio daqueles dois.

Os equilibrados são aqueles que sabem perfeitamente que não percebem nada do assunto e isso não os envergonha nem incomoda. Estão atentos, acompanham notícias, lêem e tentam filtrar a informação, seja animadora ou desesperante. Esperam sempre o melhor, mas preparam também o pior.

O equilibrado respeita todas as opiniões, mesmo aquelas com as quais não concorda. Tende a confiar em quem tem legitimidade para tomar decisões, sabendo que até esses reconhecem que o vírus é novo, imprevisível e que as coisas vão se compondo à medida que as coisas forem acontecendo.

O equilibrado nunca diz que A tem razão ou que B está errado, porque sabe que não tem nem capacidade nem competência técnica para fazer esse juízo de valor.

Enfim. É todo um mundo novo no novo mundo que agora estamos a enfrentar.

Venha o futuro, com otimismo controlado e com precaução. Com equilíbrio.