Tribuna Expresso

Perfil

Opinião

Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

Farão os árbitros uma espécie de pré-época em conjunto? Em que condições, em que locais? As dúvidas de Duarte Gomes no regresso do futebol

"Árbitros, árbitros assistentes (e até observadores, que estarão nas bancadas) têm de se sentir protegidos", escreve Duarte Gomes, que acrescenta que ainda há questões a esclarecer em relação ao regresso da I Liga

Duarte Gomes

AFP Contributor

Partilhar

O regresso mais do que provável do futebol de alta competição (previsto para finais de maio, início de junho) levanta, para além dos cuidados mil quanto à saúde dos protagonistas, idêntica preocupação em relação à terceira das equipas que estará em campo: a de arbitragem.

Há algo que tenho como garantido: é que essa questão, de transcendente importância, estará a ser preparada e tratada, ao pormenor, pelo Conselho de Arbitragem e pela USP (Unidade de Saúde e Performance da FPF).

Mas convém que todos saibamos que estamos a falar da presença, em campo, de quatro árbitros por cada um dos jogos que falta disputar. Ou seja, de mais trinta e seis pessoas por jornada, a acrescer aos restantes agentes desportivos que possivelmente estarão em funções: delegados da Liga, diretores de campo, diretores de segurança, bombeiros, elementos da forças policiais, dirigentes das equipas, apanha-bolas, etc.

Sendo pouca, é ainda muita gente e, nesta nova normalidade, quantos mais, pior.

Parece-me, por isso, determinante que a atenção a dispensar aos homens do apito seja tão profissional e vigilante como aquela que será dispensada a todos os outros profissionais.

Se assim não fosse, de que valeria aos clubes fazerem investimentos consideráveis na prevenção do vírus, quando o bicharoco podia sair, literalmente, da boca de um qualquer árbitro?

A informação disponível diz-nos que os juízes do primeiro escalão serão testados (à Covid-19 e à imunidade) ainda esta semana.

As dúvidas prendem-se agora com o que acontecerá até ao reinício da prova e, sobretudo, durante o período competitivo.

Farão os árbitros uma espécie de "pré-época" em conjunto? Se sim, em que condições, em que locais? Como se deslocarão até lá? Haverá sessões técnicas, em sala (presenciais) ou manterão o registo usado até à data (videoconferência, em suas casas)? Como prepararão, em equipa, o jogo para que estiverem nomeados? À distância ou pessoalmente? Depois de cada treino (e, sobretudo, de cada jogo) partilharão balneários? Se sim, terão acesso a um ou a mais? E regressarão a suas casas, para junto dos seus familiares ou ficarão, em estágio, num local pré-designado, até ao fim da competição (5/6 semanas)? Com que frequência repetirão os testes? Os balneários, as garrafas de água, as maçanetas das portas, as torneiras dos chuveiros, os seus equipamentos e acessórios de jogo, o calçado e a indumentária que utilizarão, os locais, em campo, que irão vistoriar no cumprimento das suas obrigações, estarão garantidamente "virus free" ou essa é uma questão que ainda não foi bem equacionada? E se, entretanto, algum dos testes efectuados der positivo, o que está pensado para resolver o assunto? E se for mais do que um? Há um Plano B? Qual?

Que fique claro que estas (e tantas outras questões que se podiam agora levantar) não são uma crítica ao que estará a ser preparado: como referi, há competência e know-how de sobra para que tudo corra bem e, até ao momento, a verdade é que ainda não se sabe como será tratado o assunto.

O que "atormenta" este vosso escriba é a preocupação de quem ainda sente esta gente como sua.

Reparem: este é, também para a classe da arbitragem, um momento novo, totalmente inédito. É perfeitamente normal que existam muitas interrogações sobre qual deve ser a melhor forma de ultrapassar esta fase e de lidar com tudo isto, de forma a diluir, ao máximo, todos os riscos.

Mas árbitros, árbitros assistentes (e até observadores, que estarão nas bancadas) têm de se sentir protegidos. Têm de se sentir seguros e confiantes.

A missão que têm pela frente surge num contexto atípico e será de elevado grau de dificuldade.

Nenhum deles pode dar-se ao luxo de arrastar, para dentro de campo, preocupações colaterais, sob pena de permitir que isso afete a qualidade do seu desempenho.

É fundamental que a estrutura os tranquilize e assegure que terão todas as condições para se sentirem focados, empenhados e motivados nos muitos "noventa minutos" que terão pela frente.

Isso será importante não só para eles mas também para os outros intervenientes, que saberão que dali não virá mal para a saúde dos seus valiosos ativos. Que saberão ainda que quem dirige os seus jogos está com a cabeça lá. No jogo que está a dirigir. Sem receios, sem medos nem ansiedades.