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O ‘timing’ do anúncio do convite de Fernando Gomes a Cláudia Santos é arrepiante. Isto é promiscuidade legal (por Rui Santos)

Rui Santos critica a génese e o ‘timing’ do anúncio da inclusão da deputada socialista Cláudia Santos na lista de recandidatura de Fernando Gomes à presidência da FPF. O comentador da SIC fala da ausência de ‘ética política’ e defende que a Assembleia da Republica deve mudar os seus comportamentos em relação ao Futebol.

Rui Santos

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Parecer da Comissão de Transparência e Estatuto dos Deputados dá nota de que Cláudia Santos, convidada pelo líder da FPF, Fernando Gomes, para integrar a sua lista de recandidatura para o quadriénio 2020-2024 no comando dos destinos federativos, como presidente do Conselho de Disciplina, em substituição de José Manuel Meirim, não viola qualquer pressuposto legal e não gera qualquer conflito de interesses.

Pode ser legal, mas não é ético e os deputados, num tempo em que a Covid-19 obriga a novos comportamentos, precisam também de adquirir uma nova consciência em relação ao Futebol.

Em artigo publicado este sábado, já avisava para a natureza contraproducente da acumulação de funções: “o anúncio público de que a professora universitária e deputada socialista Cláudia Santos vai ocupar o lugar de José Manuel Meirim no Conselho de Disciplina da FPF, em acumulação de tarefas, o que deveria ser naturalmente evitado, até pela sensibilidade dos dossiês que aí vêm, é apenas um sinal das convergências entre o PS e a cúpula máxima do futebol, protagonizada pelo também socialista Fernando Gomes”.

A Assembleia da República não pode continuar a ser vista, publicamente, como um espaço de debate em que, perante as câmaras de televisão e enquanto duram as sessões, se compõe o espaço cénico da teatralização das ideologias e, depois, com elas encerradas, nos corredores ou fora deles, cultiva-se a militância de um certo porreirismo nacional, no qual se inclui o ‘bitaitismo futebolístico’.

Se a ética (política) não começar na Assembleia da República e se, ao invés, ela der um sinal contrário aos cidadãos, estes serão compelidos a não respeitar os deputados. E isso é muito mau para a democracia.

Os deputados têm, há muito, uma visão amplamente distorcida nas relações que protagonizam com o futebol. Nas suas vidas sempre usaram ou olharam o futebol como um escape e, em muitos casos, exibem o seu clubismo com frenesim.

Por isso, durante muitos e largos anos andaram a passear-se pelas tribunas de honra dos principais clubes de futebol em Portugal e hoje percebe-se que a cortesia tem um preço.

E quem fala de deputados, fala de juízes ou quem tem capacidades decisórias.

Os clubes de futebol geram como podem as suas influências e o seu poder tentacular. As instituições é que não podem cair nesse logro e deixarem-se capturar.

Os deputados não são cidadãos quaisquer. São cidadãos que, no caso do futebol, uma indústria que movimenta muitos interesses e influências, ela própria a gerar controvérsias e entorses, devia estar acima de clubismos.

As manifestações exacerbadas de alguns deputados em defesa do seu clube de coração, inclusive com exibições encarniçadas nas televisões de clube, podem ser enquadradas no âmbito das amplas liberdades conferidas pela democracia, mas retira-lhes credibilidade no momento em que são chamados a decidir.

Não é uma questão legal; é uma questão ética — e essa não se injecta como se fosse uma vacina (ai, as vacinas…); não se decreta; ou se tem ou não se tem…

Há mais de duas décadas que deputados e dirigentes desportivos se encontram em jantares de “confraternização”. O FC Porto (como convidado) tem o hábito de se deslocar à própria Assembleia da República (AR); antigos e actuais deputados e funcionários da AR criaram uma associação de adeptos benfiquistas e está criado o hábito de jantares na Catedral da Cerveja no Estádio da Luz e o Sporting também tem um núcleo em São Bento.

Nem o Arouca, nem o Vila Real, nem o Ac. Viseu, nem o V. Setubal, nem o Farense —nem centenas de clubes espalhados pelo país — têm esta prerrogativa e o argumento da representatividade não colhe.

A política serve para promover a equidade e a oportunidade para todos e não para fomentar a desigualdade de tratamento perante as entidades e as instituições.

São princípios que escapam entre os dedos da dialéctica, mas que deviam estar presentes em cada hora, em cada minuto e em cada segundo da práxis política.

Há muito a fazer, neste aspecto, nas relações entre a Assembleia da República e o Futebol — e talvez fosse importante, no pós-Covid-19, introduzir essas alterações.

É óbvio que a indicação da deputada socialista Cláudia Santos para a lista de recandidatura de Fernando Gomes à presidência da FPF, no sentido de liderar o Conselho de Disciplina, transporta com ela a questão da acumulação de funções. Ela acontece, ainda por cima, num contexto particularmente sensível das relações e da intervenção do Estado no Futebol.

O ‘timing’ do anúncio do convite de Fernando Gomes a Cláudia Santos é arrepiante.

Discutia-se se deveria haver ou não retoma das competições, se devia haver 2.ª Liga ou não, e ficou patente o estreito quadro de relações entre a FPF e o Governo, que gerou aquele incidente da exclusão inicial de Pedro Proença da reunião de António Costa com os ‘grandes’.

Ficou a sensação que Cláudia Santos entrou no pacote de negociações.

Acresce que Cláudia Santos vai estar no Conselho de Disciplina no período crítico das decisões relativas a processos complexos que estão a decorrer, a envolver principalmente o Benfica mas também o FC Porto, e o clube azul-e-branco já assinalou que a escolha de Fernando Gomes se enquadra numa dinâmica de ‘perpetuação do grotesco’ e de ‘exposição ao ridículo’.

Isto não é bom para o partido do Governo, para a Assembleia da República, para a FPF e para o Futebol. Não vai dar certo. E vai ajudar a aumentar ainda mais o ruído.

É bom que Cláudia Santos perceba para o que foi achada e metida. Deu-se à instrumentalização ou está a ser instrumentalizada?