Tribuna Expresso

Perfil

Opinião

Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

A realidade paralela (de Duarte Gomes e não só): o escritório é o quarto, a empresa é a sala e o chefe é a pequena que anda na telescola

"A maré negra não durará para sempre e, em breve, será apenas uma memória distante de uma fase diferente", recorda Duarte Gomes, que já vê alguma luz ao fundo do túnel, em dias de pandemia de covid-19

Duarte Gomes

picture alliance

Partilhar

É preciso mais do que os dedos de uma só mão para enumerar a quantidade de filmes recentes que exploram o tema da realidade paralela. Os argumentos assentam, geralmente, numa espécie de universo que coexiste com o nosso mas onde as pessoas e animais, as circunstâncias, os objetos e os sítios surgem num mundo diferente do que conhecemos.

Para quem gosta do género, o conceito é interessante. Mostra-nos, em simultâneo, um lado real e outro fictício. Vidas gémeas separadas à nascença, com o mesmo ADN mas personalidades distintas.

Estamos em maio de 2020 e à data de hoje, a sensação que tenho é que estamos a viver nesse lado alternativo. Nesse mundo improvável.

Na vida normal, tal como a conhecíamos, o dia-a-dia era livre. Era tão livre que parecia eterno. Era tão eterno que parecia monótono.

O pôr-do-sol podia ser visto de qualquer lado, as viagens (mais curtas ou mais longas) faziam-se sem restrições, obstáculos ou barreiras e a convivência com os outros era exercida com a dimensão, ousadia e vontade que quiséssemos. Era tudo assim. Leve, fácil, à mão de semear.

Na vida normal, o mundo não tinha parado, a economia não tinha caído e a rotina não tinha mudado.

Clint Hughes

Os bebés divertiam-se nas creches e as crianças aprendiam nas escolas, brincavam nos parques e passeavam em jardins e afins. Havia um sem número de espaços dedicados à diversão e, claro, tudo aquilo era uma grande animação.

Na vida normal, as jantaradas com a família ou amigos eram em casa, no quintal ou na varanda. Íamos à esplanada, marcávamos restaurante, bebíamos um copo num pub. As mesas estavam cheias de gente contente, que brindava, com tinto e verde, a tudo o que lhes vinha à mente.

As pessoas riam sobre o que ouviam, exageravam no que diziam, tocavam-se enquanto falavam, abraçavam-se quando se encontravam. Era tudo assim. Leve, fácil, à mão de semear.

Era tudo tão livre que parecia eterno. Era tão eterno que parecia monótono.

Por vezes, claro... a normalidade também irritava, sobretudo quando o trânsito parava, quando a fila não andava ou quando o chefe, mal disposto, ralhava.

Mas até aí havia momentos bons. Havia a colega que trazia bombons ou os filhos que desenhavam corações.

A vida normal era assim. Pincelada de magia, recheada de imprevistos, salpicada de alegria.

Hoje somos reféns de uma liberdade parcial, escondida no medo e mascarada no mal.

O mundo lá de fora passou a ser cá dentro e o sorriso, antes solto e aberto, ficou tapado, coberto.

A caminhada está mais controlada, o passeio vigiado, a criatividade bloqueada.

O escritório é o quarto, a empresa é a sala e o chefe é a pequena que anda na telescola.

Hoje vivemos com dúvidas sobre o presente e receios sobre o futuro. Tudo porque a rotina foi quebrada por uma micro-vida tramada.

Enquanto esperamos, esbracejamos. Uns encolhidos, outros atrevidos, mas para a frente caminhamos.

A maré negra não durará para sempre e, em breve, será apenas uma memória distante de uma fase diferente.

Mas serve para darmos valor ao que tínhamos como adquirido, ao que julgávamos estar certo, ao que jurávamos ser seguro.

Na vida haverá sempre um muro. Mesmo que seja duro, é preciso coragem para entendê-lo, derrubá-lo e vencê-lo.

A cicatriz permanecerá mas sob a forma de vitória de uma vida bem vivida. E viver bem é viver sem medo, com coragem e esperança.

Venha o amanhã. Já passámos por pior.