Tribuna Expresso

Perfil

Opinião

Custódio Ezequiel

Custódio Ezequiel

Selecionador nacional de tiro com armas de caça

Atirar por mais um lugar nos Jogos Olímpicos

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve Custódio Ezequiel, selecionador nacional de tiro com armas de caça

Custódio Ezequiel

NurPhoto

Partilhar

O Fosso Olímpico, uma das disciplinas de Tiro com Armas de Caça, conta com uma vasta história no desporto Português (Jogos Olímpicos, Campeonatos do Mundo, Taças do Mundo e Campeonatos da Europa). É uma das modalidades olímpicas que em Portugal alcançou as quotas disponíveis em praticamente todas as edições, exceto Londres 2012 e Rio de Janeiro 2016, tendo, consequentemente, uma representação regular nos Jogos Olímpicos.

Em 2014 surgiu-me a oportunidade de integrar o corpo técnico da Federação Portuguesa de Tiro com Armas de Caça, tendo por missão criar uma equipa com capacidade de alcançar o desejado lugar Olímpico. Missão que acolhi de braços abertos e com a certeza de que com o esforço e participação de todas as entidades envolvidas seria concretizável. Adotámos assim uma estratégia faseada de envolvência dos atletas, formando uma equipa munida das capacidades essenciais, coesa e consistente, e desenvolvendo campanhas de captação de novos talentos, importantes não só para a manutenção da modalidade, mas também para que desde cedo se possa acompanhar os atletas a tornarem-se mais capazes, mais fortes e proporcionando todas as medidas para que cheguem ao mais alto nível das suas carreias desportivas. Sabíamos que se tratava de uma tarefa difícil, numa modalidade cada vez menos procurada. Não tivemos o que desejávamos a tempo dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro! Tínhamos pouco tempo de trabalho e fomos alvo de alguns percalços, determinantes, na minha opinião, para o insucesso desta primeira fase da nossa nova missão. Mas não baixámos os braços! Reagimos, aprendemos e ficámos mais fortes.

A equipa foi ganhando consistência, fruto de um trabalho rigoroso e regular, e fez até uns “brilharetes” no cenário Internacional. Em junho do ano passado conseguimos alcançar o nosso primeiro grande objetivo, o tão desejado lugar Olímpico. A emoção é de tal forma forte que é quase indescritível, quando sabemos que vamos representar o nosso país, a nossa nação, numa competição tão importante e reconhecida como são os Jogos Olímpicos.

Senti uma satisfação enorme, semelhante ao que havia sentido antes, anos antes enquanto atleta. Gostaria de poder conseguir traduzir em palavras este sentimento, esta emoção, mas só mesmo quem passa por estes momentos extraordinários poderá avaliar a conquista, o representar o nosso país. O sentimento de dever cumprido é a compensação de todo o esforço que está aí envolvido. É algo que não tem explicação, mas garanto-vos que, do ponto de vista desportivo, é a melhor sensação do Mundo.

Ser atleta de alta competição exige muito de todos os intervenientes, e só com muita dedicação e determinação, de todos, é possível fazer a diferença.

Passados alguns dias voltámos à “Terra” e no nosso horizonte já está a qualificação de mais um atleta (podem qualificar-se dois por país). Voltámos ao trabalho a todo o gás e muito mais confiantes. Temos uma equipa jovem (feminina e masculina) de alta qualidade. Quando se trabalha com atletas deste nível podemos acreditar em tudo, a qualquer momento poderemos estar num dos lugares do pódio ao mais elevado nível competitivo.

Havendo ainda um lugar a atribuir no Campeonato de Europa, em França, estávamos a executar o plano traçado com todo o rigor e dedicação, e com uma progressão bastante significativa, quando, em plena preparação, aconteceu o inesperado! Estávamos em estágio, no Norte de País quando este “maldito” vírus começou a propagar-se a uma velocidade estonteante. Algumas instalações desportivas encerraram e fomos forçados a abandonar o estágio a meio! Desde então não foi mais possível treinar, apesar de esta ser uma modalidade que não envolve aproximação. As competições internacionais foram também todas adiadas. A interrupção forçada na preparação dos atletas para a época 2020 leva-nos a introduzir uma nova estratégia, que poderá vir a ser favorável à nossa prestação. Sendo que os Jogos Olímpicos são a competição de maior exigência e maturidade desportiva, este interregno poderá ser-nos favorável por nos deixar mais tempo de preparação e aperfeiçoamento das capacidades desportivas dos nossos atletas. Todo o trabalho que vínhamos a desenvolver está fortemente comprometido, mas nada está perdido. A paragem está a ser bastante longa e a incerteza do que está para lá deste estado de calamidade causa-nos ansiedade, mas é importante tentar manter o foco porque os nossos sonhos e objetivos, como em tudo na vida, não desapareceram, foram apenas adiados. O nosso sonho continua!

A cada dia que passa aguardamos com expectativa o momento em que surja a notícia que tudo está normalizado, que não temos mais infetados e que poderemos retomar a nossa vida com normalidade (ou a nova normalidade) e aí sim voltaremos com toda a nossa energia em busca de Tóquio (já não em 2020 mas 2021) com a força e determinação suficientes para dignificarmos a nossa representação e retribuirmos aos portugueses o apoio e carinho que sempre nos têm dado.