Tribuna Expresso

Perfil

Opinião

Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

E se houvesse um registo de episódios mais escabrosos? E um dicionário com todos os impropérios? Duarte Gomes pede mais abertura no futebol

O ex-árbitro Duarte Gomes pede mais abertura no futebol, particularmente na comunicação da classe da arbitragem, porque "ninguém desconfia do que conhece, mas todos suspeitam do que não conhecem", em tempo de tweets, selfies e stories

Duarte Gomes

Buda Mendes - FIFA

Partilhar

Está mais do que provado. Uma das formas mais eficazes de mostrar clareza de processos é abrir o jogo.

Na arbitragem, eternamente sob brasas, isso só se faz com mais e melhor comunicação para o exterior.

"Ninguém desconfia do que conhece, mas todos suspeitam do que não conhecem". Esta é uma verdade eterna, intrínseca à nossa natureza. À natureza humana.

Vem isto a propósito da imagem negativa dos árbitros. Esse carimbo não nasceu hoje mas no dia em que se decidiu que o futebol precisava de regras e de alguém que zelasse por elas.

Até ao seu aparecimento, a bola rolava com liberdade. Sem restrições. Não havia cartões nem protestos. Quando um jogador gritava "falta", todos os outros paravam (mesmo os que tinham nervos a mais ou oxigénio a menos).

Era um pouco como acontece hoje, quando meia dúzia de vizinhos se juntam para jogar à bola ou quando os miúdos aproveitam o intervalo para improvisar uma peladinha.

Mas o crescimento do jogo foi rápido e, a determinada altura, o mero "falta, pára tudo" deixou de ser eficaz. Não se ouvia. Não se respeitava.

Está fácil de perceber porque é que os primeiros árbitros foram apelidados de desmancha-prazeres. Eles caíram de paraquedas e "estragaram" a pureza selvagem do jogo. Arruinaram a essência das jogatanas duras, para homens de barba rija, onde a perna só acabava no pescoço.

Daí a malandros, ladrões e corruptos foi um saltinho.

O respeito inicial (sol de pouca dura) deu lugar à contestação e, depois, ao empurrão e à agressão.

Nota pessoal: o Governo devia aprovar um decreto-lei que obrigasse à criação de um registo com a descrição dos episódios mais escabrosos que os árbitros passaram em campo. E devia aprovar outro que impusesse a redação de um dicionário onde estivessem compilados todos os impropérios de que são alvo.

Seria um espólio de valor (gramaticalmente) incalculável. Acreditem.

Entretanto, o espectáculo agigantou-se, industrializou-se, despertou interesses maiores. Os meios de escrutínio cresceram tanto que hoje é mais fácil um adepto encontrar uma agulha num palheiro do que um árbitro um penálti numa área.

Perante este cenário e sem perspetivas de melhoria à vista - o povo ainda acha que a beleza do futebol está na polémica que o rodeia e não no brilho que produz em campo - a única forma de minimizar danos é mostrar a quem está cá fora que não há nada a esconder. Porque, de facto, não há.

A arbitragem é uma classe imprescindível porque sem árbitros não há jogos.

Tudo o que a compõe, rodeia e faz mover obedece a critérios, regulamentos e códigos deontológicos bem definidos.

Se tanta gente põe em causa nomeações, avaliações e decisões, porque não desmontar tudo isso, mostrando-lhes que por trás de cada opção há uma razão? Porque não desmistificar o erro, explicar a regra, reconhecer a falha, valorizar o acerto?

Estes são tempos diferentes. São os tempos dos tweets do Trump, das selfies do "Marcelo" e das stories do Papa. A coisa está de tal modo avançada que até o Vaticano criou o E-Terço. Sim, leram bem: o E-Terço!

A opção mais sensata de quem é sensato é apanhar o comboio e seguir o mesmo caminho.

Saber comunicar para fora é uma arma poderosa quando bem utilizada, porque desfaz equívocos, dilui suspeitas e esclarece dúvidas.

Não apagará as críticas à competência nem domesticará os acéfalos com um só neurónio, mas aumentará a tolerância de muitos e diminuirá os ataques à idoneidade de quem está lá dentro.

A ideia, obviamente, não é pôr os árbitros nas flash interview, em conferências de imprensa ou a dar entrevistas diariamente. É encontrar formas inteligentes, planeadas e consistentes de mostrar o que pode e deve ser mostrado para quem está deste lado.

Os adeptos, a imprensa e até os agentes desportivos gostam de ouvir, perceber e ver o que desconhecem com os próprios olhos. Isso conforta-os, acalma-os, devolve-lhes crença e confiança.

Se é disso que precisamos para dar um passo em frente... estamos à espera de quê?