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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

Árbitros, treinadores e jogadores: a história dos atores que afinal são meros figurantes

"O futebol profissional português vai regressar e vai regressar sem ter ouvido a voz de quem lhe dá corpo e alma. A voz de quem lhe dá vida e cor: jogadores, treinadores e árbitros", lamenta Duarte Gomes

Duarte Gomes

© Eric Gaillard / Reuters

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Não é uma crítica velada, porque essas pressupõem conhecimento de causa e esse só tem quem está lá dentro. É, chamemos-lhe assim, uma constatação baseada no que se vê, ouve e lê.

O futebol profissional português vai regressar e vai regressar sem ter ouvido a voz de quem lhe dá corpo e alma. A voz de quem lhe dá vida e cor: jogadores, treinadores e árbitros.

É mais ou menos como alguém chegar ao vosso bairro e dizer-vos com que regras irão passar a acordar, adormecer, comer e trabalhar, sem serem tidos nem achados.

Come-se... mas custa a engolir. Certo?

A ideia aqui não seria pedir que fossem aqueles agentes desportivos a tomar as decisões mais estruturantes. Obviamente.

Todos sabemos que o futebol não se joga sozinho e que há estruturas e pessoas qualificadas, com regras e obrigações para cumprir. Todos sabemos que a interrupção dos campeonatos deveu-se a motivos atípicos e que a sua retoma envolve medidas excecionais e até a intervenção de entidades extra-desportivas.

O que está aqui em causa é uma questão de sensatez. De respeito.

Quem está em campo, a criar espetáculo e a fazer com que tudo aconteça, tem o direito de se fazer ouvir. Tem essa legitimidade.

Jogadores, treinadores e árbitros têm outra sensibilidade nesta matéria. Vivem e sentem o jogo de outra forma, com outra proximidade. Dominam variáveis que, cá fora, poucos percebem ou entendem.

Então não teria sido justo ouvi-los? Perceber as suas opiniões e sugestões, aprender com a sua experiência? Aproveitar o valor que teriam para acrescentar?

Penso que sim. Mas a verdade é que, vez disso, foram informados do que iria acontecer. Uma espécie de briefing, que terão sabido eventualmente pela imprensa, como todos os outros, que nada têm a ver com aquilo.

Ficaram, por exemplo, a saber que vão fazer noventa jogos em cinquenta e três dias. Que vão jogar com temperaturas acima dos 30º C, porque os jogos serão em junho e julho; ficaram a saber que vão ser testados dezenas de vezes, que vão treinar e jogar com restrições enormes e que vão obedecer a rigorosos processos de monitorização/vigilância; ficaram a saber que só podem viajar de casa para o treino/jogo e de lá para casa; ficaram a saber que os jogos serão à porta fechada, que não atuarão nos seus próprios estádios e que não poderão cumprimentar-se no início ou final de cada partida (nem poderão fazê-lo quando marcarem golos).

Por outro lado e apesar de tantas cautelas, distanciamentos e diminuição de riscos, ficaram também a saber que poderão continuar a fazer marcações cerradas, que poderão estar colados uns aos outros nas barreiras defensivas e que poderão, se necessário, carregar, empurrar, saltar, puxar ou agarrar adversários, só para os travar.

Ficaram ainda a saber que a proibição de ter adeptos nos estádios é exclusiva do futebol. Se aqueles optarem por ir a concertos em recintos fechados, a shoppings a abarrotar, a praias, supermercados ou cinemas... já podem.

Discrepâncias à parte, em bom rigor, ninguém tinha a obrigação de lhes dizer ou perguntar o que quer que fosse. Clubes, Governos e entidades organizadoras decidiram porque podiam e, se calhar, decidiram muito bem.

Moralmente, eticamente... deviam, no mínimo, ter feito a coisa de forma diferente. Ouvir quem importa é fundamental, porque o contrário passa mensagens feias.

Convém ninguém se esquecer que esta indústria, agora em fase delicada, só existe enquanto houver alguém com vontade e capacidade para jogar, treinar e arbitrar jogos.