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Ana Bispo Ramires

Ana Bispo Ramires

Psicóloga de desporto e performance

Para que não se esqueça. De quê? Da importância dos laços, do outro, da família, dos amigos, dos vizinhos, dos colegas, dos animais

Agora que saímos do confinamento, a psicóloga Ana Bispo Ramires escreve sobre o que devemos valorizar: a comunidade

Ana Bispo Ramires

Alexi Rosenfeld

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Para que não se esqueça a importância dos laços, a importância do Outro, da Família, dos Amigos, dos Vizinhos, do grupo de pessoas com que trabalhamos e até dos animais de estimação que connosco privam diariamente.

Para que não se esqueça a importância da Comunidade e do contributo individual de cada um de nós para a mesma que, inevitavelmente, consciente ou inconsciente, positivo ou negativo, acaba sempre por acontecer.

Para que não se esqueça é, de facto, importante definir como o podemos homenagear e integrar naquele que é o nosso quotidiano – afinal, nas nossas ações.

Chegámos “partidos”, emocionalmente anestesiados, cognitivamente “viciados” e, naturalmente, isolados e com um imenso sentimento de solidão preenchido demasiadas vezes por picos de adrenalina (ativação) que teimamos confundir com “felicidade”.

As “dores de crescimento” que muitas famílias e empresas atravessam resultam não do confinamento e clima de medo a que fomos sujeitos, mas sim da já parca qualidade afetiva das nossas Vidas na fase “pré-covid” – essa sim, a maior responsável pela desintegração dos laços afetivos, do sentimento de pertença, do nosso entendimento do que é “ser equipa” (em contexto de trabalho), da nossa responsabilidade connosco próprios e, por essa mesma razão, com o “outro” (pessoa ou organização).

Do Saber para o Saber-Fazer – O desafio que se impõe

Está na hora pois, de “retirar da gaveta” todos os cursos de desenvolvimento pessoal, de liderança autentizótica, de competências emocionais, de teambuilding, de desenvolvimento espiritual, entre tantos outros – enfim, todos aqueles cursos e ações de competências que “borbulharam” à nossa volta na última década e que, por momentos, nos fizeram sentir “especiais” pela possibilidade de podermos promover a mudança em nós próprios , nos outros e no mundo – uma mudança que, em boa verdade, dificilmente chegou a acontecer (pelo menos, em igual proporção ao número de “cursos” que foram sendo promovidos).

De facto, os Líderes (de família, de organizações empresariais, desportivas, escolares) que exerciam já uma influência na sua “tribo”, fazendo desenvolver um clima de pertença, de confiança intra e inter-individual e, consequentemente, que fizeram sempre com que cada individuo sentisse a importância da sua ação pessoal para o bem-estar (e performance, em muitos casos) do grupo tem sido, indubitavelmente, os que têm conseguido dirigir as suas equipas nesta “águas turvas” que todos sentimos navegar.

Esta não é, por isso, a hora de “aprender” mais, mas sim a hora de fazer mais.

É a hora de se ganhar a consciência da força da Comunidade (família, amigos, escola, empresas) que nos protege e do compromisso que precisamos assumir com a mesma.

É a hora de entendermos a Comunidade como um “organismo Vivo” que precisa ser nutrido diariamente, nas mais pequenas ações, e para o qual precisamos contribuir e não apenas “nos servir” quando entendemos ser necessário para o nosso “mundinho pessoal”.

É hora de atuar.

Para quaisquer que sejam as pessoas cuja função implique dirigir pessoas (gestores, professores, treinadores e outros líderes de equipa), torna-se prioritária uma reflexão profunda sobre a qualidade dos laços, do sentimento de cooperação, entreajuda e orgulho de pertença da sua equipa pré Covid 19 – na realidade, precisam refletir sobre que áreas da sua Liderança estariam já “doentes” e a necessitar de revitalização.

Mas este não é só um tema de liderança, mas também de quem é liderado – muito em particular, é também uma hora importante para quem não se sente “ligado” à sua equipa, ao seu trabalho, à sua família ou aos seus amigos. Quanto mais tempo irão “escolher” permanecer assim? Quanto mais tempo se ocuparão com os “erros ou faltas” dos Outros, evitando “olhar dentro”, onde a verdade se esconde e a mudança se opera?

Não é um caminho fácil, mas não precisa ser feito sozinho – é antes de mais uma escolha – sair da “anestesia” e da “fuga para a frente”, tornar os processos mais claros para que as escolhas possam ser mais óbvias (mesmo que não se consigam, ainda, fazer).

Para que não se esqueça... precisamos mesmos recordar que comportamentos atuámos nos últimos 10 anos e que nos trouxeram até ao dia de hoje – muito em particular, porque os próximos 10 anos podem começar agora.

Seja essa a nossa Escolha.

A Psicologia da Performance encontra-se direcionada para a otimização das competências psico-emocionais dos sujeitos (tais como liderança, motivação, capacidade de superação, desenvolvimento de esforço em contexto de frustração, confiança, entre outras), com o intuito de elevar o seu desempenho (em contexto desportivo, académico, artístico ou empresarial), qualidade de vida e bem-estar.