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No Sporting sempre fomos assim: autofágicos e intolerantes connosco próprios (por Nuno Saraiva)

Nuno Saraiva, jornalista, sócio do Sporting e antigo diretor de comunicação de Alvalade, escreve para a Tribuna Expresso a propósito do jogo em Guimarães e sobre Rúben Amorim e uma certa forma de estar dos adeptos leoninos

Nuno Saraiva

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Na quinta.feira, em Guimarães, vi, finalmente, uma equipa. Com debilidades? Com certeza. Com muito por e para trabalhar? Óbvio que sim. Já se nota dedo do treinador? Evidente, a começar pelo sistema tático que utilizou e pelos jogadores que escolheu. Recordo que Jorge Silas tentou o mesmo 3-4-3 e falhou. Com o mesmo plantel, mas com Rúben Amorim ao leme, a diferença qualitativa é total e absoluta, para melhor. Como já disse, e cito-me, “gosto de um treinador que transborda de confiança sem arrogância, que transpira inteligência sem sobranceria, que extravasa crença em si próprio e na equipa sem soberba. O Rúben é, desde o dia em que entrou no Sporting Clube de Portugal, o meu treinador. Assim será até ao dia em que, inevitavelmente, sairá”.

Claro que já vi por aí muita gente a apontar a “mediocridade” de alguns jogadores, a falta de intensidade, os erros defensivos e ofensivos (que existiram), até as escolhas de um treinador que nos custou “14 milhões”. Mas estavam à espera de quê após 90 dias de paragem? Alguém deu por alguma janela de mercado que se tivesse aberto durante este período e que nos permitisse reforçar-nos? E os génios que, atrás do teclado, debitam postas de pescada têm, porventura, a noção do que é não competir nem treinar (não é fazer corridinhas e manutenção, é não treinar) durante 90 dias? Têm, por acaso, consciência de que aquilo de que estamos a falar corresponde a 3 vezes mais o tempo de férias habitual, e, ainda por cima, sem pré-época, que está a ser feita em competição? Alguém julga que o regresso poderia ser diferente? Quem assim o exige, e isto é válido para os espertalhões de todos os clubes, é porque de duas, uma: ou é ignorante ou está de má fé.

Vamos a factos: dos chamados “3 grandes”, o Sporting Clube de Portugal era o que tinha o adversário mais cotado e mais difícil. Nenhum dos 3 ganhou, o que não pode obviamente servir-nos de desculpa, mas é um facto. No que diz respeito às principais estatísticas de jogo, e apesar de haver, obviamente, diferenças, aquilo que se verifica, no que respeita quer a índices físicos quer a remates à baliza, repito, remates à baliza, é um grande equilíbrio. O Sporting foi o único que mudou de sistema tático e estreou jogadores que deram ótimas indicações para o futuro. Além disto, começámos com 5 jogadores da formação no 11 titular – Max, Eduardo Quaresma, Rafael Camacho, Matheus Nunes e Jovane – e tínhamos mais dois no banco – Plata e Pedro Mendes – tendo, um deles, entrado na segunda parte. Há quanto tempo isto não acontecia? Aqui está o caminho que defendo, como já escrevi em artigo publicado no Record: montar uma equipa que equilibre experiência e formação, não como uma fatalidade, mas como uma oportunidade.

Para o fim, deixo aquilo que sempre me preocupou, e que nada tem que ver com a dimensão desportiva: a militância ou falta dela. No Sporting Clube de Portugal sempre fomos assim, autofágicos e intolerantes connosco próprios. Bem sei que nos falta o cimento das vitórias e das conquistas, mas há razões objetivas para que assim seja e que todos conhecemos. Por isso é que defendo que se deve falar verdade, não por falta de ambição, mas por realismo e pragmatismo. Ontem, como é hábito, o discurso mais praticado por muitos Sportinguistas foi o da maledicência e da detração. Ainda para mais, numa noite em que os jogadores e staff dos nossos rivais foram alvos de uma tentativa de homicídio por parte, alegadamente, de elementos das claques que não existem, mas que eles insistem em apoiar, apesar de não existirem. E, perante isto, o que é que vários de nós fazemos? Ficamos entretidos a dizer mal de nós próprios. Isto para já não falar de uma grupeta que, além de pretender dar-me lições de Sportinguismo que não admito a ninguém, ainda me brinda com insultos e calúnias, só porque me limito a ser militante do Sporting Clube de Portugal e, ao contrário deles, quero que o Sporting ganhe sempre.

Ou seja, isto é que é a falta de militância que sempre existiu no nosso Clube, e sobre a qual tantas vezes falei enquanto servi o Sporting. Este comportamento é a contradição absoluta dos que passam a vida a encher a boca com o chavão da militância no Clube, mas que depois são militantes de tudo menos do Sporting Clube de Portugal. Isto é o paradoxo completo dos que passam a vida a encher a boca com os chavões da “defesa dos superiores interesses do Sporting” ou de que “ninguém está acima do Sporting”, mas que depois colocam agendas pessoais e individuais acima do Sporting Clube de Portugal. Enquanto continuarmos assim não vamos, seguramente, a lado nenhum. Eu, por mim, estou onde sempre estive, isto é, no Sporting Clube de Portugal, com Esforço, Dedicação e Devoção. Eu, por mim, é desta causa que sou militante, e nunca me ouvirão denegrir ou fragilizar a imagem da Instituição no espaço público. Falo com a autoridade de quem defendeu, publicamente, que, seja qual for o ângulo ou perspetiva por que se analise a absolvição de um ex-Presidente e de um ex-funcionário do Clube, esta foi uma excelente notícia para o Sporting Clube de Portugal, na medida em que manteve sem qualquer mácula o nome e a reputação desta Instituição mais do que centenária. Eu, por mim, não alinho em cultos de personalidade, porque, para mim, ninguém é maior do que o Clube.

Sporting Sempre!