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Alfredo Silva

Alfredo Silva

Comissão de Marketing e Financiamento do COP

Porque é que os governos investem no desporto de alto rendimento?

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve Alfredo Silva, da Comissão de Marketing e Financiamento do COP *

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Porque é que os governos de muitos países apostam uma boa parte das receitas dos impostos dos cidadãos e das empresas ao desporto de alto rendimento? Tendo por missão gerir o bem comum, o que ganham os governos, e o que beneficia a comunidade com as prestações desportivas dos melhores atletas de um país?

Várias reflexões têm ocupado vários pensadores sociais e investigadores da área da gestão do desporto. Efetivamente, o que se sabe é que os benefícios coletivos para o bem comum são superiores aos custos que os países se sujeitam com esses investimentos aplicados no setor do alto rendimento desportivo.

Porém, o que se requisita é uma clareza do racional das decisões que afetam milhões de euros anuais à preparação e à participação de atletas de alto rendimento nas maiores competições desportivas: campeonatos da Europa, do mundo e Jogos Olímpicos. Jonathan Grix professor na Universidade de Birmingham deu um contributo para compreender o racional. A filosofia que está por trás deste modelo de investimento sério - de muitos países desenvolvidos - no desporto de alto rendimento é o designado “ciclo virtuoso” do desporto. A lógica do "ciclo virtuoso" do desporto é suportada pelo seguinte racional: o sucesso do desporto de alto rendimento, 1) traz prestígio internacional ao país, 2) reforça a identidade nacional, 3) constitui um fator de sentimento positivo e bem-estar na população, 4) promove o aumento da participação desportiva da população em geral, a qual, por sua vez; 5) conduz a ganhos no setor da saúde e ao fornecimento de talentos para o desporto de alto rendimento; e isso conduz novamente ao sucesso de desporto de alto rendimento, conforme figura seguinte.

Várias políticas públicas e numerosas investigações publicadas têm demonstrado a robustez do "ciclo virtuoso" do desporto: as políticas públicas relacionadas com a promoção da participação desportiva da população em geral:

a) A Organização Mundial da Saúde dedicou o relatório Europeu à definição do caminho para o bem-estar;

b) A União Europeia lançou o EU Physical Activity Guidelines;

c) Em Portugal, o Governo, através do Instituto Português do Desporto e Juventude e da Direção-Geral de Saúde, lançou a Estratégia Nacional para a Promoção da Atividade Física, da Saúde e do Bem-Estar.

A investigação em gestão do desporto tem mostrado que o desempenho do desporto de elite de um país é considerado i) um dos principais veículos para melhorar o prestígio internacional e a reputação de uma nação; ii) ajuda a população desse país a construir e manter uma ideia de unidade e aumenta o orgulho nacional, e; iii) nos desportos com maior tradição de um país eleva a sensação de bem-estar subjetivo da população, através do fator “sentir-se bem” (feelgood factor), argumento que foi utilizado após a gorada prestação nos Jogos Olímpicos de Atlanta 1996: 36.º país medalhado, entre 71, para sugerir ao governo de Inglaterra um maior investimento no desporto de elite, particularmente nos desportos que mais interessam à população.

Em síntese, o investimento no desporto de alto rendimento, como é bom de ver, é pois um investimento muito produtivo, gera largos benefícios para a comunidade, e o que é bom para a comunidade é porque tem valor para o bem comum e para os membros da comunidade.

* Professor de Gestão do Desporto na Escola Superior de Desporto de Rio Maior, Instituto Politécnico de Santarém, Centro de Investigação em Qualidade de Vida. As fontes bibliográficas poderão ser fornecidas pelo autor: [email protected]