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Blessing Lumueno

Blessing Lumueno

Treinador de futebol

FC Porto. Aquele passe de Vitinha fez os seus colegas mais maduros parecerem crianças. E isso é notável

O treinador e comentador Blessing Lumueno sentiu-se motivado a escrever sobre o Aves - FC Porto após aquele passe extraordinário de um jovem jogador portista. Para este cronista, Vitinha está preparado para jogar

Blessing Lumueno

Gualter Fatia

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O futebol vive dias em que os cientistas querem transformar o jogo numa tabela enumerada. Tudo é mensurável, tudo é quantificável, e tudo pode ser demonstrado, de grosso modo, com gráficos de movimento, com quilómetros percorridos, e somas de acções como as recuperações de bola ou número de passes certos.

Com honestidade vos digo que, compreendo o esforço que está a ser feito para se simplificar a leitura do jogo, uma vez que torna fácil a qualquer pessoa alfabetizada avaliar um determinado cenário consoante os critérios definidos pelo grafismo e pela numerologia.

O que me entristece é o esquecimento do jogo.

Com tanta ciência, com tanta disciplina adjacente que deveria ajudar ao crescimento do futebol, há menos pessoas a ver jogos completos e mais a olharem para os resumos e para o número de acções que se têm como certas. A preguiça está a tomar conta de nós, e o que se perde é inestimável - estamos a perder o jogo aos poucos.

Ontem, Vítor Ferreira brindou-nos com um passe absolutamente brilhante (para quem não o viu, está AQUI). Creio que o passe correu o país, de tão vistoso que foi, e a maior dificuldade que encontrei foi a de tentar traduzir aquela acção num número. Não sou capaz de explicar este passe como um passe certo, como um passe-chave, ou de alguma outra forma que o reduziria a um passe como outro qualquer.

A falha é minha, confesso, mas não me deixa satisfeito retirar uma acção (seja ela qual for) do ambiente onde foi executada.

Para explicar este passe tenho de falar da qualidade técnica que se exige a um destro para executar o passe naquela zona. A leveza, a graciosidade, a subtileza e a naturalidade do movimento são incalculáveis e invisíveis aos olhos do movimento científico.

Se olharmos para o lance desde que Luis Díaz decide ir para a linha de fundo, não percebemos no médio azul e branco a tentativa de observar o espaço do outro lado do campo, estando quase sempre focado na bola. Tal não significa que não tenha outras estratégias para perceber os movimentos dentro do seu raio de acção, mas não lhe percebo, como era evidente em Xavi (o exorcista), o rodar o pescoço para recolher informação que o possa ajudar a decidir o lance, e isto leva-me a pensar que o lance não foi pensado de antemão.

Quando Aboubakar ganha o ressalto está de frente para Vitinha, pode entregar mas decide rodar e tentar atacar ele a baliza. Vítor está a perceber o que vai sair do lance, sendo que um colega está apertado por três defesas, e a perda de bola poderá estar iminente, ele prepara o momento de pressão pós-perda focando-se em perceber que trajectória a bola poderá seguir. O avançado camaronês confirma a perda da bola que por sorte vai ter aos pés do futuro dono do meio campo portista. O cronómetro assinalava 94 minutos e 59 segundos, e aos 95 minutos e 1 segundo a bola iniciava a sua marcha dos pés de Vitinha pronto para a finalização. Até à perda de bola de Aboubakar ele esteve sempre focado na bola, e só quando percebe que a bola vai na sua direcção é que ele ajusta o corpo para que possa perceber em que condições está o jogo do outro lado.

Num segundo ele dá um pequeno salto para se posicionar de forma a ter como opção jogar para o lado contrário, e noutro segundo executa a maravilha que não cansa ver. São dois segundos o tempo que ele leva, o tempo que ele tem, para decidir e executar.

E olhando para o que estava em causa, percebendo-se que era um jogo que o Porto precisava de ganhar para manter o conforto pontual conseguido na jornada passada, vendo alguns dos seus colegas “mais experientes” que deveriam ter muito mais responsabilidade nestes momentos do jogo, sabendo-se que ele tem pouquíssimos minutos na equipa principal, e que tinha entrado num jogo onde as condições para aparecer não eram as melhores, a lucidez para nos brindar com uma acção destas, quando faltavam apenas dois minutos para terminar a compensação, é um traço de personalidade que não se pode esquecer.

Demonstra que está pronto para jogar porque do ponto de vista emocional não se desequilibrou, não tremeu, e assumiu a responsabilidade. Neste lance, aliás, Vitinha fez os seus colegas mais maduros parecerem crianças. Notável.

Um passe desta qualidade é sempre de relevar, mas num jogo em que a equipa está sob brasas e precisa de marcar torna o seu valor incalculável. Reparem que não é um lance que tenha a ver com o modelo de jogo e treino, não é um lance trabalhado e decorado; é intuição pura, é improviso. É qualidade individual. É uma acção maravilhosa em que Vitinha entrega o golo numa bandeja, e só é pena não ter sido na mesa de Fábio Silva para que fosse ele a empurrar.

O futebol, como muitas outras áreas, admite a quantificação dos números. Porém, tão pobre exercício nunca será capaz de explicar a diferença entre um passe e um passe.