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João Paulo Almeida

João Paulo Almeida

Diretor-geral COP

Não deixar o desporto para trás

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve João Paulo Almeida, diretor-geral do COP, sobre "as conquistas desportivas" que se afiguram "como uma oportunidade apetecível aos protagonistas políticos a apressarem-se a encenar um evento mediático"

João Paulo Almeida

Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, com António Costa, primeiro-ministro, Fernando Gomes, presidente da FPF, Fernando Medina, presidente da CML e Ferro Rodrigues, líder da Assembleia da República, na conferência de imprensa de apresentação da final da Liga dos Campeões, em Lisboa

MIGUEL A. LOPES/LUSA

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Perante a ausência de um sinal político evidente, ou da discussão de um pacote de medidas efetivo de resposta ao impacto da crise da covid-19 no desporto, apresentado por várias organizações do sector, desde orientações de retoma da atividade desportiva até ao apoio financeiro extraordinário à sustentabilidade das entidades que o compõem, o País e o universo desportivo voltam a tomar consciência da sua irrelevância na agenda dos principais atores políticos nacionais.

Começando no chefe de Estado, passando pelo Governo e atravessando os partidos com assento parlamentar, são nas últimas décadas honrosas as exceções sobre um pensamento ou orientação programática para o desporto. Atente-se para o efeito aos programas de Governo ou aos programas eleitorais, onde tantas vezes a palavra “desporto” não consta ao longo de centenas de páginas, e compare-se com semelhantes programas noutros países europeus…

Ao invés, as conquistas desportivas afiguram-se como uma oportunidade apetecível aos protagonistas políticos a apressarem-se a encenar um evento mediático em torno de uma classificação de destaque de um atleta ou equipa nacional numa competição internacional relevante, ou, como aconteceu esta semana, na atribuição da organização de uma destas competições a Portugal, perfilando as mais importantes figuras do Estado diante das câmaras em horário nobre televisivo.

Não há aqui, pois, nada de novo entre a aridez de uma política pública para o desporto e a sua instrumentalização ao serviço da propaganda política, nem mesmo a ausência de decoro no meio de uma crise sem precedentes.

Trata-se de algo tão ou mais enraizado quanto o infrutífero e cíclico exercício de catarse do universo desportivo face ao agudizar desta tendência, alertando para o tratamento discricionário face a outros sectores cuja sustentabilidade depende também da abertura ao público dos seus eventos e espetáculos, a sangria de recursos e competências da Administração Pública Desportiva, a escassez de meios das organizações desportivas face à relevante missão de interesse público que desenvolvem ou a desvalorização da educação física e do desporto na escola, entre tantas outras vulnerabilidades que se agravam e perpetuam sem um horizonte de esperança e de mudança.

Afigura-se cada vez mais evidente que a criação desse horizonte exige do tecido desportivo a capacidade de se colocar numa posição onde a mudança seja estrutural, e não circunstancial ou paliativa, pois o padrão de relacionamento institucionalizado entre os interesses do sector e as autoridades públicas não é nem corporativo, nem pluralista, mas fragmentado, o que vale por dizer que não tem por isso as vantagens de uma rede de interesses bem organizada, nem da diversidade de interesses concorrentes junto das esferas de decisão.

O cancelamento de competições, de treinos, a perda de filiação de sócios, de patrocínios, das receitas de direitos de transmissão televisa, de direitos de imagem, de apoios municipais ou donativos causaram problemas incomensuráveis ao sector: desde clubes locais a equipas profissionais, de atletas a juízes, árbitros e treinadores, adeptos, patrocinadores e parceiros oficiais. Entre os mais atingidos estão os clubes e as federações, os quais, por força do seu escopo não lucrativo e estrutura associativa, não dispõem de reservas substanciais para subsistirem neste cenário, ameaçando seriamente a sua existência e sustentabilidade.

Trata-se de uma crise cujo impacto avassalador ainda está longe de ser conhecido, que levou o Comité Olímpico de Portugal a apresentar, em tempo oportuno, um quadro de medidas transversais, devidamente enquadradas e fundamentadas, para superar um momento de enorme incerteza, num período crítico também no percurso de preparação para os Jogos Olímpicos.

Caso se pretenda que não venham a ter o mesmo destino de outras, no passado, esfumando-se num quadro político marcado por oportunidades mediáticas, sem peso ou agenda política, é crucial o movimento desportivo perseverar e congregar todos os seus meios e agentes das suas modalidades, para se mobilizar e dar eco a estas medidas, que mais não são do que soluções práticas, céleres e justas para não deixar o desporto para trás nesta crise.