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Ana Bispo Ramires

Ana Bispo Ramires

Psicóloga de desporto e performance

Saúde Mental e Literacia Emocional (ou a falta dela)

A psicólogo do desporto e da performance escreve sobre analfabetismo emocional e como a nossa cultura continua, “parolamente”, a associar as questões de vulnerabilidade psicoemocional a um qualquer “defeito de fabrico”

Ana Bispo Ramires

Klaus Vedfelt/Getty

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Portugal mantém-se muito perto do “Top Mundial” em questões que se relacionam com a ausência de Saúde Mental, sendo neste momento um dos países da OCDE que mais consome ansiolíticos e antidepressivos, atingindo já uma taxa que duplica o consumo ocorrido em alguns congéneres europeus – e, esta, talvez não seja um pódio onde almejaríamos estar.

Apesar deste fenómeno não ser uma consequência direta da pandemia que vivenciamos, uma vez que este tipo de estatísticas começa a ficar fortemente enraizado no nosso DNA (como tem sido evidenciado nas estatísticas referentes a esta área nos últimos anos), naturalmente que assumiu proporções mais expressivas no decorrer da mesma, com o testemunho dos mais jovens a referenciar um aumento de cerca de 17% no consumo de psicofármacos neste mesmo período.

Este não é, por isso, um tema “novo” – é sim, um tema que nos acompanha por estar a ser, desde sempre, descurado e “não visto”... entenda-se, considerado um tema quiçá “menor”.

Já se sabe que - e perdoem-me a expressão, mas tendo já decorrido mais de 20 anos do início do novo milénio, é incompreensível - “parolamente” a nossa cultura continua a associar as questões de vulnerabilidade psicoemocional a um qualquer “defeito de fabrico” que precisamos esconder a todo o custo, ao invés de os encarar como “margem de progressão” para aquisição de novas e melhores competências, novas e melhores formas de bem-estar.

Também sabemos que, curiosamente, outros sinais de igual (ou maior) fragilidade psicoemocional (e, por vezes, psicopatia), expressos através de comportamentos agressivos (de grande “virilidade” para os latinos? Será que ainda é isto?), parecem merecer os créditos de uma qualquer “competência acrescida” quando, por exemplo, passando por cima de tudo e todos se chega a um dado patamar de um qualquer tipo de “êxito” que a nossa sociedade teima em, uma vez mais “parolamente”, validar...

Contudo, a única razão que nos “prende” e faz estagnar, como se não fossemos capazes de olhar para uma Saúde Global e não estigmatizada (onde se inclui tanto as áreas psico-emocionais, como as que se referem à nossa saúde músculo-esquelética, cardiovascular, venosa, entre tantas outras) relaciona-se inevitavelmente com uma espécie de “analfabetismo emocional”, onde a incapacidade em ler emoções (as nossas e as dos outros), contribui de forma dramática para todo e qualquer tipo de problemática que assole a nossa sociedade.

Dúvida? Vamos fazer um pequeno teste:

Baixo rendimento escolar (curiosamente, por vezes o alto também), bullying (em contexto académico ou empresarial), violência e agressividade (em casa, no desporto, nas escolas, nas empresas, em todo o lado), taxas elevadas de consumo de psicofármacos, consumo elevado de fármacos para regulação do sono (ou do apetite, ou da energia em geral), índices elevados de insatisfação com a escola (apurados muito recentemente numa amostra de alunos portugueses que, na realidade, se encontram “amotivados” – sem motivação alguma), elevadas estatísticas de divórcio (que, em Portugal, e à semelhança de muitos outros países, dispararam a seguir ao confinamento), doenças psicossomáticas e autoimunes (e os seus elevadíssimos custos para o bolso dos contribuintes), insatisfação com a performance desportiva, profissional e até sexual.

Enfim, uma extensíssima e infindável lista de situações do “quotidiano” que seriam, senão erradicadas, pelo menos claramente diminuídas se escolhêssemos apostar claramente na Literacia Emocional dos nossos cidadãos.

E, nem vamos falar, da despesa pública (que todos pagamos) associada a uma política “paliativa” e não preventiva, unicamente justificada por não sabermos fazer contas e sermos altamente “competentes” (muitas dúvidas nisto) a curto prazo, ao invés de um planeamento a médio longo prazo como, de resto, tudo deveria exigir (saúde, economia, educação, enfim).

Inevitável, por isso, e enquanto continuar a ser promovida uma cultura de consumo de psicofármacos através da expectativa de resolução rápida da sintomatologia que traz desconforto, em vez de nutrirmos uma cultura de Saúde Mental e Literacia Emocional, através de uma maior diferenciação cognitiva e emocional, onde se pode socorrer, por exemplo, do conhecimento científico da Psicologia para promover uma maior consciência e regulação dos afetos, a tendência de “galgar” cada vez mais este ranking.

Soluções?

Termos consciência que a solução não poderá ser nunca nem imediata nem compartimentada, uma vez que deve atravessar não só os diferentes setores como as diferentes gerações da nossa sociedade.

Apostar na literacia emocional de quem, de alguma forma, tem responsabilidade na formação e/o gestão de outras pessoas para que a mesma se possa difundir muito mais rapidamente - professores, treinadores, gestores, diretores, médicos, entre outros profissionais que acabam por ter acesso a um maior número de pessoas.

Definir critérios de validação de competência que possam impactar diretamente e de forma inequívoca na avaliação atuada em contexto académico, desportivo e empresarial.

Termos a noção, o sentido de missão (e a coragem) de assumir que esta é uma ação que a atual geração poderá apenas lançar, uma vez que estará nas mãos das gerações que se seguem a continuidade de implementação e, muito provavelmente, a recolha do mérito da mesma.

Termos a noção que, definitivamente, temos que deixar de nos sentir reféns da lógica “tonta” (e imatura) do retorno imediato, e assumir que a nossa responsabilidade (individual, de grupo e Comunidade) será garantir que os “tijolos que assentarmos” deverão ser firmes e sólidos – tanto quanto a emergência que se impõe no que respeita a levarmos este assunto com a seriedade que merece – para que, quem vier a seguir, possa ter uma base sustentada para continuar a construir os pilares da mudança que se pretende.

Assumirmos, definitivamente, que a solução não partirá nunca de uma só cabeça, de uma só disciplina ou de uma só organização e que, sinal de inteligência e maturidade será a constituição de equipas multidisciplinares que possam discutir, implementar, errar, reformular e implementar de novo e mais uma e outra vez até que se possa encontrar uma solução que se ajuste da melhor maneira possível à necessidade que temos de “reflorestar” o deserto emocional em que nos encontramos.