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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

Nuno Santos. Mathieu. Bruno Lage. Igualdade de género. O Futebol para a Vida. Arbitragem. Pedro Lima e covid-19 (por Duarte Gomes)

O ex-árbitro Duarte Gomes endereça os vários temas que têm marcado a atualidade desportiva na última semana, sem "verdades absolutas"

Duarte Gomes

Gualter Fatia

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Oito títulos para uma só crónica obriga a enorme capacidade de síntese, algo que honestamente não é bem a minha praia, mas vou agarrar o desafio.

São, de facto, muitos os assuntos que têm marcado a atualidade. Sobre cada um não haverá verdades absolutas. Isso é certo e garantido. Existirão opiniões, pontos de vista e perspetivas, todas legítimas, respeitáveis, aceitáveis.

Esta é a minha forma de olhar para cada uma delas:

1. Nuno Santos (Rio Ave)

Foi apenas mais uma vítima da malícia de quem se esconde atrás de um teclado para fazer o que faz melhor: destilar ódio. Essa missão de vida é exclusiva de quem se sente inferior, inseguro e denota frustração diária por saber que não passa de um pequeno nada. Todos os dias, há Nunos, Antónios, Franciscas e Manéis que caem nas mãos destas criaturas, que mais do que raiva ou ódio, devem merecer a nossa compreensão, solidariedade e misericórdia. Cada qual nasce para o que nasce e há quem nasça para ser assim. Infeliz.

2. Mathieu

Quando a classe começa nos pés, passa pelo coração e termina na cabeça, não resta muito para dizer. Um profissional que o futebol português teve o privilégio de ver desfilar nos seus relvados. Um senhor que o mundo do futebol não pode permitir-se perder. Até na saída teve classe. Único.

3. Bruno Lage

Gualter Fatia

Foi endeusado e trucidado. Foi salvador e matador. Foi Deus e Diabo. É tramada a vida de treinador. Do Bruno, do Joaquim ou do Carlos. É raro o ser humano que - acossado, pressionado ou estrangulado - consiga reagir com razão e serenidade, com maturidade e elevação. A resposta perfeita é possível até se tornar impossível e não há uma única alma no planeta que não tenha sucumbido à emoção irrefletida. Claro que atitudes infelizes têm consequências proporcionais, o que não é sinónimo de bar aberto à matança. Esta (minha) verdade vale para hoje, como valeu para ontem e valerá para amanhã. Serve para quem vista de azul, de vermelho, de verde ou de roxo. É transversal. Chama-se respeito e gratidão.

4. Igualdade de género

O movimento levado a cabo por várias jogadoras de futebol profissional tinha, na sua aparência e essência, um trunfo constitucional aparentemente inabalável. Entre a medida contestada - bem mais profunda e bondosa do que aparentou - e a interpretação exterior que lhe foi dada, a melhor decisão foi tomada: matar o mal pela raíz, sanando potenciais conflitos e evitando um rótulo que o presente e passado recente mostram que seria imerecido. Assunto arrumado, com a habitual celeridade, elegância e eficácia. Chapeau.

5. O Futebol para a Vida

Muitos são os jogadores, ex-jogadores, árbitros, treinadores, membros de claques e dirigentes que se juntaram à enorme causa da solidariedade. O movimento "Futebol para a Vida" cresceu e já ajudou, além de centenas de atletas em dificuldade (e respetivas famílias), muitos civis que vivem situação extrema. O apoio, transversal, reflete-se em donativos como entrega de roupas, compra de medicamentos, pagamento de contas, distribuição de alimentos, obras na habitação, apoio financeiro pontual, liquidação de rendas mensais e muito, muito mais. Espreitem o site (www.futebolparaavida.pt) e vejam como podem fazer parte desta enorme família. Gigantes.

6. Arbitragem

A última semana não foi agradável para a arbitragem. O Tribunal Central Administrativo do Sul (TCAS) deu razão a Gonçalo Martins na sua pretensão em reintegrá-lo na primeira categoria. A decisão surge depois de uma longa batalha e, mais do que qualquer alteração prática, deve ser motivo de reflexão para a classe. Porque é sempre importante perceber o que correu bem e o que correu menos bem.

Recentemente, um árbitro no ativo foi detido (está agora em liberdade, com termo de identidade e residência) por crimes alegadamente cometidos no âmbito de outra atividade. O princípio para ele é o mesmo que deve ser aplicado a qualquer outra pessoa: suspeita não é condenação. Todo o ser humano é inocente até prova em contrário. Isso não invalida que não se tomem medidas intermédias/temporárias na defesa do interesses de todos.

7. Pedro Lima

O Pedro foi apenas a última vítima conhecida (e aparente) da mais silenciosa e estigmatizada doença do século. A pressão que a sociedade exige de cada um de nós esbarra na nossa limitação emocional e psicológica. Na nossa condição humana. Somos gente a viver como robôs. Pedir ajuda, ter aconselhamento profissional e desabafar com os nossos são pequenos passos para o regresso ao bem-estar, para o tratamento gradual, para a cura final. O buraco é feio, profundo e muito negro. Não o critiquem, não o censurem e, por favor, nunca o desvalorizem.

8. Covid-19

Podia ficar em branco, a nota sobre este tema, mas se passarem os olhos pelas redes sociais, verão que não faltam opiniões, argumentos, estudos, depoimentos, factos, provas, ideias, argumentos, declarações e testemunhos em todos os sentidos: é um bicho-papão ou é uma gripezita, é o fim do mundo ou é uma mera constipação.

Já dei para o peditório mas decidi ceder à razão, que é como quem diz, ficar em silêncio, ouvindo quem de direito, com sensatez, prudência, esperança e responsabilidade.

O tempo encarregar-se-á de nos dizer tudo o que há para saber sobre esta fase atípica e desafiante das nossas vidas.

Até lá, é esperar, com os pés no chão e a cabecinha no lugar.

Até para a semana.

Carta aberta ao Dr. Bruno Nascimento, treinador do Benfica

Pedro Cruz, subdiretor de informação da SIC, escreve a Bruno Miguel Silva do Nascimento, também conhecido como Bruno Lage, pelas infelizes declarações sobre jornalistas, após o Benfica-Santa Clara