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A propósito da quase-dramatização de Luís Filipe Vieira

A conferência de imprensa do presidente do Benfica após a derrota com o Marítimo levantou algumas dúvidas: irá Vieira abdicar da liderança de um clube ao qual chegou ao poder em 2003? Parece pouco provável

Pedro Candeias

JOSÉ COELHO

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Pode ter sido do cansaço, dos nervos e da comoção - que, vá, eram perfeitamente naturais -, mas o que resultou da conferência de imprensa improvisada de Luís Filipe Vieira foi uma complicação para quem a viu e ouviu em direto. Naquele momento ficaram algumas dúvidas: Bruno Lage pedira a demissão e o presidente acedera ao treinador, ou queria ainda uma noite para refletir melhor? E o presidente “que não verga” disse que iria repensar o seu futuro no Benfica ou tinha apenas alertado para os novos Vale e Azevedo que ele insinua ver por aí sempre que a crítica aperta e as eleições se aproximam?

A primeira questão foi respondida rapidamente pelo próprio Benfica: sim, Bruno Lage pusera o lugar à disposição e, sim, Luís Filipe Vieira aceitara a resolução do contrato; a confusão fora um desencontro comunicacional.

À segunda questão só o tempo resolverá, mas medindo palavra a palavra o discurso de Vieira parece bastante improvável que este deixe a Luz 17 anos depois de ter assumido a liderança. Foi assim: o presidente do Benfica relembrou os benfiquistas de como o clube era antes dele e pareceu recordar-lhes também os trabalhos e sacrifícios a que se dispôs na recuperação do SLB. E completou: “Quando chegar a Lisboa, vou também tomar uma decisão que será, também, de não vergar”. Depois de falar com a família.

Ou seja, foi uma quase-dramatização de Luís Filipe Vieira que já teve exibições francamente melhor conseguidas neste particular. Em junho de 2005, por exemplo, afirmou que se demitiria em outubro do mesmo ano se o clube não chegasse aos 300 mil sócios. Havia um contexto - a apresentação do novo kit de sócios - e, no final, a ameaça não passou de um exercício de marketing projetado no futuro: em 2014, Luís Filipe Vieira ainda era presidente do Benfica, que tinha então 235 mil sócios, e voltou a pedir o tal número mágico, desta vez sem direito a contrapartidas.

Agora, em junho de 2020, com o Benfica a somar dois triunfos em 13 jogos e a perspetiva de perder o título para um FC Porto que a máquina encarnada insistentemente adjetiva de “falido”; com um plantel desequilibrado e mal ajustado em janeiro, apesar da “invejável” saúde financeira, que permitiu aos jogadores manterem os seus ordenados intocáveis na pandemia; com o seu projeto e o seu ideal do Seixal e o modelo de negócio postos em causa como nunca nos últimos anos, Luís Filipe Vieira tem obviamente de abanar as coisas. Fê-lo, talvez inesperadamente, assumindo as culpas de tudo o que aconteceu e assim esvaziou um dos argumentos dos seus adversários. Que ele sabe que não são apenas Rui Gomes da Silva, Bruno Costa Carvalho e o menos conhecido Ricardo Martins Pereira; há grupos de benfiquistas a pensar noutras vias para eventualmente se apresentarem na corrida às eleições de outubro.

P.S.: Em 2009, e perante as críticas e a falta de resultados, Luís Filipe Vieira decidiu desmanchar os órgãos sociais, convocou eleições antecipadas e encurtou a estratégia da oposição. Justificou a manobra assim: “Face a uma discussão eleitoral que arrancou completamente fora de tempo e que ameaçava provocar uma clima de instabilidade institucional que não podia prolongar-se até ao mês de Outubro (data prevista pelos estatutos para a realização das eleições) solicitei aos órgãos sociais do clube a sua demissão, de forma a permitir a antecipação das eleições. Quem já está no terreno há mais de três meses a reunir, criticar, a constituir-se em movimento precisa, ainda, de mais tempo?” Venceu com 91,74% dos votos a favor.