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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

Duarte Gomes tem algumas coisas a dizer sobre árbitros fortes, firmes e seguros (e também sobre os que amuam)

O texto do antigo árbitro e agora comentador começa da seguinte forma: " Fui árbitro durante 25 anos. Nesse período vi nascer dezenas de jogadores, treinadores e dirigentes. Dirigi jogos de muitas equipas, de vários escalões, em quase todas as competições. Acertei muito e errei bastante. Bastante mais do que queria e desejava. Já o disse publicamente uma, duas, cem vezes". O resto é para ler com atenção

Duarte Gomes

David Davies - PA Images

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Fui árbitro durante 25 anos. Nesse período vi nascer dezenas de jogadores, treinadores e dirigentes. Dirigi jogos de muitas equipas, de vários escalões, em quase todas as competições.

Acertei muito e errei bastante. Bastante mais do que queria e desejava. Já o disse publicamente uma, duas, cem vezes.

Essa intensa experiência de vida permite-me entender o que sente esta geração de árbitros. Sei bem a pressão a que estão sujeitos quando alguns jogos correm mal. Conheço os estilhaços mortíferos que um trabalho menos conseguido pode gerar.

Sei o que é ter polícia à porta da creche da filha, pneus do carro cortados e vidros do prédio partidos. Sei o que é ter, à porta de casa, vários contentores do lixo incendiados. Sei o que é receber ameaças de morte sistemáticas e o que é sentir os olhares matadores de anónimos, desconhecidos e vizinhos, quando algo corre mal. Lembro-me bem da angústia, tristeza e frustração que se sente quando passamos por isso. Quando expomos os nossos a isso.

Segui em frente e hoje analiso arbitragens.

Tento esclarecer a opinião pública sobre as decisões que são tomadas em campo, explicando as diretrizes que os árbitros têm e as regras que existem.

Tento fazê-lo o melhor que posso e sei, de forma justa e séria.

Decido pela minha cabeça, em consciência e sem quaisquer tipo de interferências. Decido com independência e com a coerência possível. Mas o comentador de arbitragem não está imune ao erro, porque o futebol não é uma ciência exata. Muitos dos momentos que produz são subjetivos, podem gerar opiniões distintas e pontos de vista opostos. É assim aqui e em qualquer lugar do mundo.

Sabendo disso, é importante que quem desempenhe esta função tenha em mente que já esteve do outro lado e que já errou muito. Essa humildade (que deve ser genuína), esse saber prático, aproxima-o do campo, das vivências do relvado e ajuda-o a pensar mais. A trabalhar melhor.

Já as "exigências" para o outro lado, o dos árbitros, também são relevantes.

Um árbitro forte, firme e seguro deve entender que estes são tempos difíceis e que a sue exposição pública é gigantesca. Deve compreender que a sua função, que tem benefícios tremendos, tem também alguns danos colaterais.

Um árbitro forte, firme e seguro não pode pensar que um comentador de arbitragem, por ser seu ex-colega, tem obrigação moral de o defender, de o proteger ou de lhe dar o benefício da dúvida quando, na sua consciência, só há certezas.

Um árbitro forte, firme e seguro não deve agradecer as críticas positivas como se eles fossem uma dádiva divina nem amuar com as negativas como se elas fossem uma tragédia grega. Quando o faz, desvaloriza-se e desrespeita-se. Diminui-se.


Um árbitro forte, firme e seguro não deve confundir amizade com profissionalismo. Deve pensar o contrário. O amigo é o profissional que diz o que pensa sem que a amizade o influencie. Não há maior prova de respeito do que essa.


A verdade é que, nesta relação sensível, é importante que saibamos olhar para os nossos defeitos e qualidades antes de olharmos para o dos outros. É importante respeitarmos a liberdade de quem faz algo diferente, sem permitir que ela afete as relações pessoais que temos. O único segredo para preservar tudo isso é agir com lealdade e respeito. Com profissionalismo e ética.

Este texto é dedicado a todos aqueles que manifestam enorme dificuldade em perceber esta realidade. E é também dedicado a quem pensa que a arbitragem resume-se a arbitrar jogos, ser classificado e progredir na carreira.

Isso tem outro nome. Chama-se carreirismo e é um desporto individual que não deve caber aqui.

Arbitragem é sinónimo de coletivo. É uma família enorme, cheia de gente do passado, do presente e do futuro, que cresceu do nada para, com entrega e dedicação, ter hoje o que tem: condições de trabalho invejáveis, meios de excelência, compensação financeira adequada e acompanhamento especializado e competente.

As coisas não caíram do céu. Foram fruto de muito diálogo, de muitas discussões, de muita negociação. Foram fruto de horas e horas de trabalho e de extenuantes viagens pelo país.

Há muita gente que sabe disso. Quase tanta como a que subitamente parece ter-se esquecido.

Cabe a cada árbitro respeitar o legado que os anteriores lhes deixaram, fazendo o mesmo para as gerações que se seguem.

Se isso está a ser feito, ótimo.
Se é cada um por si... não esperem grande respeito de quem está cá fora.