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Maria Machado

Maria Machado

Gestora de projeto do COP

A segunda equipa

Maria Machado, gestora de projeto do COP, fala-nos da Equipa Olímpica de Refugiados, dos dois atletas-refugiados que treinam em Portugal e da importância da integração. Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país

Maria Machado

PEDRO UGARTE/Getty

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Mais do que ser primeiro
Herói é quem
Sabe dar-se por inteiro
E dentro de si mesmo ir mais além

Manuel Alegre

Entram no Estádio Olímpico a seguir à comitiva grega: são a segunda equipa.

Falam diferentes línguas, de recônditos lugares da terra ou de sítios afinal não tão distantes. Na sua heterogeneidade, representam um único povo, de mais de 80 milhões de pessoas em fuga que têm em comum a dor e a esperança. Todos eles fugiram de violência, de perseguições, de devastações, tragédias… e na esperada cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos vibram emocionados com o desfile inicial que os distinguirá para toda a vida.

Nos Jogos Olímpicos Rio 2016, Thomas Bach, presidente do Comité Olímpico Internacional, deixou uma mensagem de esperança para todos os refugiados: “Sem uma equipa nacional a que pertencer, sem uma bandeira atrás da qual marchar, sem hino nacional a ser tocado, estes atletas refugiados serão recebidos nos Jogos Olímpicos (JO) com a bandeira e o hino olímpico. E terão uma casa na Aldeia Olímpica com os outros 11 000 atletas de 206 Comités Olímpicos Nacionais”. Anos depois, com Tóquio à vista, ainda é necessário reforçar a mensagem e 50 atletas-refugiados sonham com esta oportunidade.

Em Portugal, dois jovens refugiados treinam arduamente para integrar a Equipa Olímpica de Refugiados (EOR). Com a mesma coragem e a mesma persistência que os trouxe até nós, agora, com o adiamento de Tóquio 2020, tentam sobreviver às adversidades físicas e mentais do confinamento obrigatório e procuram manter-se em forma para atingir a qualificação que lhes permitirá concretizar o sonho olímpico.

Entre o lugar que se deixou e o lento criar de raízes no local onde estão, o desporto é a pátria. A cada dificuldade, o pugilista Farid Walizadeh (n. 1997, Afeganistão) e o velocista Dorian Keletela (n. 1999, Congo) respondem com bravura e determinação. O modo como reagiram, ainda antes do adiamento dos JO Tóquio 2020, ao impedimento de entrar em Londres para o torneio de qualificação olímpica e ao cancelamento do estágio de seleção no Qatar, mostrou a resiliência destes jovens que nos fazem acreditar na força extraordinária da natureza humana.

Na verdade, antes da sua vinda, a maioria de nós estava longe do drama dos refugiados. A sua chegada desafiou-nos para a necessidade de mobilizar vontades, abrir os braços e os sorrisos, descobrir recursos e meios que estavam à espera de ser ativados… e algo mudou. Teve de mudar porque não podemos ser indiferentes ao Outro que, afinal, poderíamos ser nós.

O desporto é reconhecido como um caminho para o desenvolvimento e inclusão social. Não temendo a inexperiência, indo para além do entusiasmo do momento mediático e da comoção das imagens fortes, o Comité Olímpico de Portugal mobilizou-se e estendeu os braços (no que eles representam de ação concreta) ao acolhimento de dois promissores atletas refugiados… e mais, desde 2016, tem proporcionado, a cerca de um milhar de refugiados, a oferta de material desportivo para a prática de diversas modalidades e acompanhado na integração no tecido associativo daqueles com capacidades desportivas para a vertente competitiva.

Esta semana chegaram a território nacional 25 menores oriundos de campos de refugiados da Grécia. Para já, rapazes com idades entre os 15 e os 17 anos, de três nacionalidades - afegãos, egípcios e iranianos -, de um total de 500 menores que serão recolocados em Portugal. Não podemos fingir que não vemos e escondermo-nos atrás de pretextos para não fazer nada.

Sim, é possível fazer coisas. Sim, é possível mudar vidas. Sim, é possível fazer ainda mais. Não como num ato de magia, mas com ações reais, às vezes dolorosas, às vezes jubilosas. Todos estamos convocados para oferecer essa segunda (ou terceira, ou quarta…) oportunidade de recomeçar, encontrando na comunidade os parceiros que nas suas áreas de intervenção possam contribuir, sem impor, para que cada jovem possa construir o seu projeto de vida.

Que sonhos terão estes recém-chegados? Quem sabe se um sonho olímpico?

Os segundos são os primeiros. A segunda equipa!