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Teresa Portela

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Atleta olímpica de canoagem

Manter estabilidade em tempos de instabilidade

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve Teresa Portela, atleta olímpica de canoagem

Teresa Portela

AFP

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Estamos a viver tempos únicos em que o Desporto foi apenas um dos muitos afetados, e ser ano olímpico complicou ainda mais a situação. É um ano em que a prioridade dos atletas é estar 100% focados na sua prova olímpica, um ano em que se procura a excelência, em que se dedicam horas e horas de treino ao grande objetivo. De repente, a prioridade passou a ser a nossa saúde, a saúde e a segurança da nossa família e dos que nos são mais próximos, tivemos de nos adaptar e reinventar nos treinos, tais eram as limitações e as incertezas. Na verdade, a incerteza passou a ser a única certeza.

A mudança foi tão drástica que mesmo os Jogos Olímpicos foram adiados, ainda que sem a garantia de que se vão realizar, para 2021. Será que é possível manter a motivação, continuarmos focados com todas estas limitações e incertezas? Será que conseguimos manter-nos estáveis no meio desta instabilidade? Será que esta alteração de planos vai ter consequências no desempenho futuro dos nossos atletas? São muitas as questões, mas estamos na era da dúvida e estas perguntas só se juntam a tantas outras para as quais não há, ainda, resposta.

Ser atleta implica uma grande capacidade de adaptação, implica reinventarmo-nos e saber lidar com a dúvida em inúmeros momentos. Quem nunca duvidou em treinos menos bons, em competições menos boas, em momentos menos bons. A dúvida existe, e é nestes momentos que precisamos de enfrentá-la: "pensar na razão que nos leva a treinar, a gostar, a desfrutar do que fazemos, pensar no nosso grande objetivo". Deixar tudo mais claro na nossa cabeça. Parece realmente simples, mas este processo é muito mais complexo do que parece, e só está ao alcance de alguns, de poucos, diria eu. E, neste momento, para que esteja ao alcance de todos, tem de haver uma maior sensibilidade daqueles que estão envolvidos no desporto, um trabalho de uma equipa multidisciplinar, muitas vezes adormecida também na alta competição, e que será a chave para garantirmos que todos os atletas consigam manter-se equilibrados e tranquilos, desfrutando dos seus treinos, para estarem, em 2021, na sua máxima forma.

No meu caso, estive em casa durante quase quatro meses, sempre com o apoio da minha família, e foi sem dúvida o que me deu tranquilidade, estar em casa com saúde e ter os meus comigo também em segurança. E ao longo destes meses tentei não pensar tanto no lado negativo de não haver Jogos Olímpicos, aliás, poucas foram as vezes em que pensei nisso, procurei sempre mais desfrutar do dia-a-dia, treino a treino, manter-me ativa e igualmente competitiva. Valorizar mais o prazer de treinar, mesmo quando não há a competição em troca. E ter tido a oportunidade de treinar em casa, sem treinador, sem pensar em tempos, em velocidades, mas apenas em mim e em sensações, foi único.

Vai haver sempre um antes e um depois desta pandemia, e seguramente há um lado positivo, só temos de deixar que esse lado domine, mas só trabalhando em conjunto vamos conseguir realmente desfrutar e partilhar os bons momentos.

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