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Falar a várias vozes

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve José Manuel Constantino, presidente do Comité Olímpico de Portugal

José M. Constantino

Imagem da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016

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O espaço mediático é, nos tempos que correm, mais do que um lugar onde se comunica. É lugar de encontro de vários poderes. Pelo que o modo como ele é ocupado ajuda ou prejudica as dinâmicas de trabalho das organizações, os seus propósitos e o sucesso na prossecução dos intentos que as mobilizam a intervir nesse espaço.

No desporto, o espaço mediático é ocupado por vários protagonistas com origem no movimento desportivo: atletas, treinadores, árbitros e juízes, empresários e dirigentes, individualmente ou através das respetivas organizações. Pode dizer-se que o desporto “fala” a várias vozes. É um dado objetivo, incontornável e sem retorno. Entendemos isso como positivo.

O acesso ao espaço mediático para a generalidade das modalidades desportivas é sempre um caminho difícil e estreito, dependente de muitas variáveis, a começar no calibre da mensagem e na notoriedade dos protagonistas, pelo que aproveitar as oportunidades que existem é um princípio do mais elementar bom senso. Nesse sentido, é perfeitamente natural, e desejável, que os vários atores desportivos, com acesso ao espaço mediático, se pronunciem sobre os diferentes aspetos da vida desportiva nacional.

O mesmo princípio é válido para as organizações desportivas de topo. As que têm representação orgânica e aquelas que o não tendo se juntam para, por força das circunstâncias, defenderem problemas comuns. Se existem é porque representam interesses distintos. Que naturalmente carecem de ter voz própria e autónoma.

Comité Olímpico de Portugal, Comité Paralímpico de Portugal e Confederação do Desporto de Portugal têm um histórico com missões e atribuições distintas. Circunstâncias próprias fizeram emergir a Plataforma do Desporto Federado e o Movimento das Federações Desportivas com modalidades coletivas de pavilhão que enriqueceram o espetro associativo nacional e sobretudo a reflexão sobre os problemas do desporto.

Estas dinâmicas são positivas e revelam um tecido associativo em movimento e em mutação. Mais do que tentar travar esta pluralidade orgânica devemos adaptar-nos a essa nova realidade no sentido destas dinâmicas acrescentarem valor à representação desportiva nacional, complementando-a e reforçando-a. A vida democrática é, ela própria, a abertura ao pluralismo de opiniões. Fomentar e estimular esse pluralismo é reforçar a vida democrática. O princípio é válido para todos, incluindo para as organizações representativas.

Questão distinta, e que carece de um outro tipo de abordagem, é o da representação institucional. Cabe ao movimento desportivo, designadamente às federações desportivas, definir os termos da sua representação institucional e respetivos territórios de intervenção: quem representa quem, mas sobretudo em que domínios e para que políticas. São conhecidas as dificuldades que, neste domínio, pontualmente se levantam, em boa parte suscitadas pela indefinição de competências ou pela sua duplicação.

Neste domínio a “fala” a várias vozes dos mesmos representados - as federações desportivas - comporta um risco: o do desporto não “falar” numa mesma direção, fragilizando um sentido de “corpo” e de “pertença”, vital para consolidar a mensagem a difundir, esclarecer as suas posições e alcançar aquilo que pretende para todos.

O evitar desta situação só é possível através de um reforço das relações de cooperação bilateral, aumentando a troca de informações e pareceres para que se possam construir consensos em torno dos aspetos que são comuns.

A Cimeira das Federações Desportivas recentemente realizada demonstra que a construção de um caminho comum é possível, se cada uma das organizações de topo estiver animada de um propósito de convergência e se esforçar para que isso ocorra.

O primeiro passo desse caminho, com um apoio unânime do movimento federado, está dado e é inequívoca a mensagem transmitida ao país na moção estratégica aprovada.