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João Paulo Vilas-Boas

João Paulo Vilas-Boas

Vogal Comissão Executiva COP

Haverá alguém que ainda não escreveu sobre a pandemia?

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje escreve João Paulo Vilas-Boas, vogal da Comissão Executiva do COP

João Paulo Vilas-Boas

Ramsey Cardy

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A pandemia da COVID-19 tem transformado irreversivelmente a forma como vivemos e iremos viver no futuro. E apenas em meio ano! Através dela conseguiram-se, como que por passe de mágica, alterações de vida inimagináveis em períodos de duração duas, três…, dez vezes superiores; para o melhor e para o pior. Alterações inequivocamente para pior, na maioria dos casos, especialmente espelhadas na crise económica, mas sobretudo assustadoras se pensarmos na atordoante limitação das liberdades individuais e na facilidade como prosperaram – e irão prosperar, se não estivermos atentos – estratégias de controlo dos cidadãos, capazes de fazer corar de embaraço o Orwelliano mais empedernido. É claro que, em contrapartida, algumas coisas poderão ter melhorado, assim se consiga enfrentar a crise pela perspetiva da oportunidade e não pela da ameaça, da fatalidade.

Espreite-se porque lado for, o que não há dúvida é que não se fala de outra coisa. Fala e escreve! Haverá alguém que ainda não escreveu sobre a pandemia? Já agora também eu lavro o meu escrito a propósito e, infelizmente, acrescento à cacofonia. Infelizmente, digo, porque bem gostaria de não ter motivo! E o meu motivo é o Desporto, que, tudo indica, vai sair deste processo muito maltratado!

Que a ameaça foi e é real parece não restarem dúvidas. Incertezas haverá, porém, acerca da adequação ou da desproporcionalidade das medidas de contenção adotadas, da dimensão das respetivas consequências e – agora já mais recentemente – das estratégias de apoio às populações e de incentivo à recuperação económica e social. Aqui, de facto, é que a porca torce o rabo! Confinar, afastar e proteger foram estratégias aparentemente sábias (apesar de às vezes formuladas de forma muito “patarata”, claramente assimétrica ou excessiva). Abrir progressivamente as portas da sociedade, também. Apoiar os setores produtivos e a economia em geral, por forma a mitigar os efeitos perversos do imobilismo? É claro; não havia alternativa! Mas… e o resto? O resto é um problema aparentemente só dirimível pelo proverbial: “quem não chora, não mama!” Foi assim com a cultura (penso que cabe nisso de cultura a tal coisa do Campo Pequeno), com o futebol (mesmo se agora já se percebe que podiam ter ido mais longe se não fossem tão depressa) e com outros setores. Mas… e o Desporto? (e não vou aqui discutir se o desporto não é cultura e se o futebol é ou não desporto, ou só espetáculo – cultural, ou não).

Nos dias que correm quase não há pais que abdiquem de uma formação desportiva relevante para os seus filhos. É uma questão cultural, diria mais: civilizacional! (Paradoxalmente, esses mesmos pais, às vezes, parecem não enxergar o papel da Educação Física e do Desporto Escolar, mas essas são contas de outro Rosário). Como fazem para a conseguir? Recorrem sobretudo aos clubes desportivos, que generosamente se substituem ao Estado e fomentam a parca prática desportiva que temos em Portugal. Sim, porque o Estado não foi, até hoje, capaz de traduzir em políticas reais os discursos de ministros e secretários de estado (e de subsecretários de estado e diretores-gerais) acerca da importância, do valor social, educativo, higiénico (e etc.) do desporto. O Estado precisa do movimento associativo, dos clubes, das associações e das federações para o fazerem por si! Para cumprir a sua missão constitucionalmente determinada.

E que tem isto que ver com a pandemia?

Se virmos bem… tudo! É que com o recato, o confinamento, a reclusão dos cidadãos, o distanciamento social, as limitações à liberdade de circulação e de ação (a privação efetiva do direito e liberdade de opção constitucionalmente estabelecido a tanger o limiar de uma “nova ordem”) os clubes deixaram de ter participantes ativos; deixaram de dispor das receitas provenientes das mensalidades dos praticantes que os sustentam (não, não é o Estado que os sustenta para fazerem o que a Constituição o obriga a ele!); deixaram de poder pagar (miseravelmente) aos seus treinadores e aos seus outros funcionários. Enfim, deixaram de poder subsistir o Estado na promoção do Desporto e dos valores que sabemos que este transporta consigo. Deixaram de poder existir e de, portanto, sustentar o nosso “sistema” desportivo e de promover os nossos atletas, as nossas glórias.

O Comité Olímpico de Portugal, o Comité Paralímpico de Portugal e a Confederação do Desporto, pelo menos, têm insistido repetidamente com o Governo na necessidade de se implementarem medidas efetivas de apoio ao Desporto – à essência do Desporto –, enquanto estamos em tempo; enquanto temos Desporto, mesmo se pequenino e espartilhado, mas seguramente sofrido. Respostas: quase nenhumas!