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Mulher atleta e gravidez 

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve Yahima Ramirez, atleta olímpica de judo

Yahima Ramirez

Matthew Stockman

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Nos últimos anos, a presença feminina no desporto registou um aumento notável. Tomemos como exemplo o caso dos Jogos Olímpicos de Londres, onde 44% dos atletas participantes eram atletas femininos.

Certamente que tal facto significa um grande avanço no que toca à igualdade de género na prática do desporto de alta competição. Foquemo-nos agora na percentagem dentro destes 44% de mulheres. Quantas eram mães? Embora não se consiga obter um número concreto, é com segurança que se pode afirmar que a percentagem é muito reduzida, por vários motivos. Comecemos por analisar as dificuldades que o desporto de alta competição pode originar na gravidez.

Citando a especialista em medicina reprodutiva e diretora do Fertility Medical Group de Campo Grande, Suely Resende, “embora o sedentarismo seja um problema de grandes proporções, a prática de exercícios físicos intensos pode dificultar uma gravidez, exigindo, inclusive, ajuda médica especializada para ter um bebé. Sendo assim, é muito importante intercalar um tempo de recuperação para o corpo e a mente.” Como explica Suely Resende, o stress físico e emocional pode ter graves repercussões hormonais nas atletas Olímpicas, pois a mulher atleta ainda sofre bastante com a pressão imposta não só pelos treinadores e pelos patrocínios, como também pela vontade própria de alcançar resultados. Ainda segundo Suely, os problemas mais comuns entre atletas de alta performance são: a baixa produção de progesterona, menstruações escassas ou, em alguns casos, interrupção completa da menstruação. “É válido considerar, também, outros problemas que podem agravar o quadro da paciente, como baixo peso e teor de gordura corporal, além de estados hipoestrogénicos, que podem resultar em perda prematura de massa óssea”, diz a especialista.

Não só as dificuldades na gravidez se apresentam como entrave à maternidade no desporto de alta competição, também a carência de apoios financeiros e as dificuldades em termos psicológicos têm influência.

A dificuldade começa logo no planeamento do tempo certo para engravidar. A vida da maioria dos atletas é organizada em ciclos quatro anos, de acordo com a realização dos Jogos Olímpicos. Então importa planear muito bem qual a melhor altura para engravidar, de forma a ser ainda possível regressar a tempo de estar em forma e garantir o apuramento para os Jogos.

E quando menciono dificuldades psicológicas que uma mãe atleta enfrenta refiro-me ao seu calendário desportivo, tão rigoroso, que a obriga a passar grande parte da infância do seu ou dos seus filhos longe, e por vezes, inclusive, com problemas de natureza diversa, difíceis de resolver devido à distância. Estes fatores prejudicam o rendimento desportivo, pois afetam o lado psicológico. Como todos sabemos, quando se trata de um familiar que não está bem, ficamos afetados psicologicamente, mas quando é um filho nosso a necessitar de ajuda o caso afeta-nos a um nível acima do preocupante.

Para analisar a falta de suporte financeiro basta recuarmos dois anos para verificar um exemplo da falta de apoio financeiro às atletas mães, quando, em 2018, a Nike propôs à velocista olímpica Allyson Felix um corte de 70% do salário antes de engravidar. A atleta pediu garantias de que não seria penalizada se rendesse abaixo do seu nível nos meses que antecedem e sucedem o parto, tendo recebido uma resposta negativa.

“Nós, atletas, temos muito medo de dizer publicamente que se tivermos filhos corremos o risco de os nossos patrocinadores nos cortarem o salário durante e depois da gravidez. É um claro exemplo de uma indústria desportiva onde as regras são feitas maioritariamente por homens”, escreveu, visto que não se registam casos onde entre os homens que são pais tenha havido qualquer tipo de penalização. Também Alysia Montaño e mais de uma dúzia de atletas olímpicas deram o seu depoimento no que toca à discriminação feita às mães atletas. Três meses após o artigo de Alysia Montaño ser publicado no jornal The New York Times, a Nike, assim como outras empresas, mudou a sua política no que toca às mães atletas. No entanto, tal não significa que o problema esteja erradicado. Um atleta de alta competição recebe em função do seu desempenho desportivo, verifica-se portanto uma brecha no que toca ao apoio na maternidade, pois, com exceção de alguns casos, como a manutenção da bolsa do Projeto Olímpico para as atletas que estejam integradas, uma atleta mãe não recebe qualquer tipo de apoio financeiro durante a gravidez.

Ser mãe não é o final de uma carreira, pois muitos são os casos onde se verificam resultados desportivos semelhantes e até superiores após a gravidez, como é o exemplo da tenista americana Serena Williams, que depois de ter sido mãe venceu o torneio de Auckland, sendo a segunda maior campeã da história de torneios “major”, apenas a um título de igualar a australiana Margaret Smith Court; a velocista americana Alysson Felix foi campeã do Mundo; a velocista jamaicana Shelly-Ann Fraser-Pryce foi também campeã do mundo dos 100 metros. Passando agora para alguns exemplos nacionais, eu mesma conquistei um bronze europeu, classifiquei-me no 5.º lugar no Mundial e fui aos Jogos Olímpicos de Londres; a maratonista Sara Moreira foi 3.ª na maratona de Nova Iorque; Jéssica Augusto foi 3.ª na meia-maratona de Amesterdão; a mesatenista Fu Yu obteve uma medalha de ouro nos Jogos Europeus de Minsk 2019, entre muitas outras atletas que após serem mães obtiveram resultados excecionais, inclusive superando os resultados anteriores à gravidez. Com todos estes exemplos podemos concluir que ser mãe não significa um impedimento à prática do desporto de alta competição.

Em suma, gostaria de apelar ao incremento de apoios e até mesmo à criação de alguns novos, pois é de facto preocupante que o desporto aos olhos da sociedade não tenha a devida consideração – inclusive, o Governo demonstrou não reconhecer o desporto o suficiente, tendo-o deixado de fora do Programa de Estabilização Económica e Social. Algumas das medidas que gostaria de sugerir de modo a melhorar a situação da maternidade no desporto de alta competição são, por exemplo: a criação de um subsídio de maternidade, sendo disponibilizada ajuda financeira durante os meses de gravidez, visto que nós, mães, temos de suspender a prática da atividade desportiva; estender o seguro de saúde fornecido aos atletas aos seus filhos, sem custos adicionais nos primeiros anos de vida; existir prioridade de vaga nos infantários, dado que tanto os infantários públicos como os privados estão na sua maioria lotados - é uma necessidade para uma mãe atleta inscrever o seu filho, pois está muito ausente em competições internacionais; ajuda nas despesas, nos campos de férias, pois as férias de verão dos seus filhos coincidem com provas importantes como o Campeonato do Mundo e os Jogos Olímpicos; a clarificação do contrato de preparação Olímpica, de modo a tornar mais percetível o tópico da gravidez e os apoios disponibilizados, nomeadamente a extensão da bolsa garantida durante o período da gravidez e do período expectável de regresso à competição, pois, volto a referir, ser mãe não é um ponto final na carreira de uma atleta mas sim uma vírgula que separa uma fase de outra.