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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

O repto de Duarte Gomes - versão 20/21

O ex-árbitro deixa uma ideia para a época que aí vem: "Eles sabem, eu sei e vocês sabem: ninguém ganha em campo apenas por insistir na ideia que o 'rival' é mau e feio. Ninguém é campeão no relvado só por apontar o dedo acusador ao opositor"

Duarte Gomes

Octavio Passos

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A nova época, até por nascer no meio da mais turbulenta realidade de que há memória, tem tudo para ser diferente no que diz respeito a comportamentos a observar, sobretudo fora dos relvados.

Nesta altura, a mensagem mais sensata a passar deve ser de esperança e desafio: esperança que erros passados sejam usados, sensatamente, como aprendizagem para práticas futuras; desafio destinado àqueles que têm voz ativa no futebol. A todos aqueles que, com o seu mediatismo, sabem que formam opinião, que criam tendências, que influenciam estados de espírito.

A responsabilidade desses é tremenda, portanto a exigência que deve recair sobre cada um deve ser de idêntica proporção.
A questão, na verdade, é até muito simples:

- O nosso futebol, tecnicamente evoluído e com uma fornalha de miúdos/treinadores com enorme qualidade, precisa de continuar a crescer e afirmar-se.

Para que isso aconteça, tem que ser liderado, conduzido e dirigido por gente competente, séria e corajosa. Tem que ser comandado por gente independente, humilde e trabalhadora.

Isso aplica-se a todos aqueles que ocupam cargos de liderança/chefia nas múltiplas esferas da indústria.

O sucesso dessa forma de estar será maior se cada uma dessas pessoas perceber qual o seu espaço, a sua missão e área de intervenção.

A ideia é simples: cada um deles deve esforçar-se para ser sempre melhor no que faz. Deve canalizar o seu saber e energia para as variáveis que controla, sem perder um segundo com aquelas que não dependem de si.

Gualter Fatia

Como sabem, sou e fui sempre muito crítico de quem dedica parte significativa do seu horário de trabalho a olhar para o vizinho do lado. A levantar suspeitas constantes sobre adversários diretos (e é quase sempre sobre esses que as levanta), perturbando tudo e todos. Criando narrativas públicas de desconfiança.

Essa forma de estar não acrescenta valor, não pacifica a indústria nem ajuda a esclarecer o que quer que seja. Pelo contrário.

Que não restem dúvidas do seguinte: se em qualquer área desta enorme indústria existirem indícios de crime, de condutas ilícitas ou de práticas imorais, que sejam expostas sim! Que se exerça o direito de as condenar veementemente, mas nos locais próprios e da forma mais adequada. A denúncia é, nesses caso, mais do que um dever, uma obrigação.

O problema é que, regra geral, essa troca de galhardetes é sustentada não na busca da verdade, mas numa estratégia de comunicação bem definida e planeada. É ponderada, calculada e pensada. É isso que a torna tão censurável.

O pior é que tem impacto visível no comportamento de muitos adeptos, influenciando inclusivamente o rumo de muitas das notícias publicadas na imprensa.

Eles sabem, eu sei e vocês sabem: ninguém ganha em campo apenas por insistir na ideia que o "rival" é mau e feio. Ninguém é campeão no relvado só por apontar o dedo acusador ao opositor.

É preciso mudar. Fazer diferente.

A qualidade de um trabalho pressupõe uma premissa apenas: trabalhar com qualidade.

Convençam-se: só é verdadeiramente bom quem tem a classe, o caráter e a grandeza de canalizar atenções para o que é importante, entregando a esse compromisso competência e seriedade.

Aos jogadores cabe tentar jogar cada vez melhor; aos treinadores cabe tentar treinar cada vez melhor; aos árbitros cabe tentar arbitrar cada vez melhor, aos dirigentes cabe tentar dirigir cada vez melhor; e a todos os restantes agentes cabe tentar criar condições ideias para que isso aconteça.

Cá fora, aos jornalistas, analistas e comentadores, cabe tentar informar com seriedade, qualidade e verdade. Sem especulação, sem subserviência e sem pensar no ego, umbigo ou carreira.

Se cada um cumprir a sua função da forma mais honesta que sabe, todos contribuirão para um espectáculo com mais qualidade, virtude e vitalidade. Que ninguém duvide disso.

Para mudar é preciso coragem mas o mais difícil é começar.

Espero, muito sinceramente, que esta seja realmente uma época diferente para melhor.

Fica o repto: transcendam-se.