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Exclusivo. “Pelo fim da promiscuidade”, por João Noronha Lopes

Num texto de opinião escrito para a Tribuna Expresso, o candidato à presidência do Benfica critica o apoio de António Costa a Luís Filipe Vieira e propõe medidas para a transparência

João Noronha Lopes

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O futebol tem dado muito a Portugal e aos portugueses. Da seleção aos clubes, passando pelos principais protagonistas, os jogadores, o futebol faz bem à alma do povo português. Mas também faz bem à economia. Só que quando olhamos para as relações entre o mundo do futebol e o sistema financeiro, a política ou até a justiça, há mesmo muito a mudar.

A exigência de escrutínio e de transparência tem aumentado muito na sociedade portuguesa. O mundo do futebol não é exceção. Estamos a chegar ao fim de um ciclo e não mais será possível gerir um clube como aconteceu nas últimas três décadas. Quem não perceber este novo contexto, estará, mais cedo do que tarde, condenado a falhar, com consequências diretas no rendimento desportivo.

Ao contrário daqueles que vivem no passado, sei que chegou ao fim o tempo de facilitismo na forma como a banca financiava os clubes. Os portugueses já não aceitam a promiscuidade entre sistema financeiro, clubes de futebol e os seus dirigentes. Da mesma forma que ninguém tolera que entre interesses dos clubes e classe política se ultrapassem várias barreiras que protegem os interesses de ambas as partes.

Prezo muito todos aqueles que têm ou tiveram responsabilidades políticas, aos mais vários níveis, e que, independentemente da sua cor política, serviram a República, mas quem tem funções executivas não se pode imiscuir em eleições internas num clube de futebol. É o caminho para preservar os interesses das várias instituições.

Mas quem observa tudo isto não deve continuar a ser brando com os costumes. E quem, como eu, assiste a estes acontecimentos num momento em que se candidata à presidência do Sport Lisboa e Benfica, uma das maiores instituições do país, só poderá pugnar por uma profunda mudança. Parece-me ser esse o anseio de uma maioria de sócios. As propostas apresentadas pela minha candidatura introduzem, entre outras mudanças importantes, um grau de exigência inédito no futebol português:

- Nenhuma comissão de honra, lista ou órgão consultivo apresentado por esta candidatura incluirá políticos em funções executivas.

- O presidente entregará anualmente a sua declaração de rendimentos, que ficará depositada numa comissão independente a criar em sede de revisão de estatutos que garantirá a inviolabilidade e o necessário escrutínio desses elementos.

- A implementação de um código de conduta disponível para consulta de todos no website do clube. Esse documento será escrupulosamente seguido para detetar e evitar conflitos de interesses. A par disso, haverá um regime de incompatibilidades, com foco nos negócios entre o Benfica e familiares, amigos, funcionários, ex-funcionários e empresas de membros dos órgãos sociais.

- A contratação de bens e serviços acima de determinado valor obrigará a um procedimento de consulta prévia a três entidades, salvo em casos de impossibilidade a ser justificada, por escrito, pelo vice-presidente da área.

- Os estatutos do clube exigirão o voto físico, em boletim de papel, para reduzir risco de fraude eleitoral, sem prejuízo de voto por correspondência, também em boletim de papel, para sócios residentes nos arquipélagos e no estrangeiro.

O futebol português, e o Sport Lisboa e Benfica como o seu maior clube, têm de impor a si mesmos uma exigência de seriedade e respeitabilidade muito superiores à que observamos e idêntica à que exigimos de qualquer outro setor da sociedade.

Enquanto candidato à Presidência do Sport Lisboa e Benfica, obrigo-me a um dever de transparência que é o mesmo que caracterizou toda a minha experiência profissional. Aliás, é espantoso para mim que se conceba sequer um cenário em que aquilo que é esperado de um presidente é a capacidade de operar em corredores sombrios, bastidores pouco recomendáveis e relações pessoais que algum decoro desaconselharia.

De onde eu venho, e para onde vou, a transparência e a seriedade serão sempre a verdadeira medida da boa liderança e o melhor caminho para o sucesso desportivo. Cumpre por isso mostrar, democraticamente, que um ciclo terminou e outro está prestes a iniciar-se. Acredito que o Sport Lisboa e Benfica o merece.