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O que é o Benfica? Dinheiro sem mística

Sem o espírito jovem, português e popular do Seixal, o Benfica é só poder e dinheiro. Fazer da academia a Camelot benfiquista é o único caminho para uma identidade benfiquista remotamente parecida à do FC Porto. Sem essa identidade, o nosso dinheiro e a nossa influência junto do poder político nunca serão suficientes para superar o FC Porto, que, com muito menos dinheiro e influência, ganha tanto ou mais do que nós. Eles têm um coração que nós não temos.

Henrique Raposo

Gualter Fatia

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Mesmo antes desta polémica sobre o apoio de Costa e Medina a Luís Filipe Vieira, andava com um texto na cabeça com este título, O que é o Benfica? O que fizeram ao meu Benfica? Porque é que não sinto o Benfica da mesma forma? Porque é que sinto o Benfica como um projecto unipessoal e agressivo? Sou benfiquista, cresci com o Benfica no centro da minha identidade familiar. Mas agora tenho de perguntar: qual é a identidade do Benfica? O Benfica representa o quê e quem? Não sei.

O FC Porto tem um identidade que se capta assim que entramos no norte; não é preciso chegar ao Douro, essa identidade sente-se logo na zona de Aveiro. O FC Porto tem esse espírito de corpo à Stark, aquele clube é o norte, representa as gentes nortenhas. Os jogadores sentem esta mística desde o início. Um ponta de lança austríaco entra no balneário do FC Porto e no dia seguinte já fala com a mística nortenha contra o centralismo de Lisboa.

Nós, Benfica, não temos esta identidade. O Benfica é o clube de Lisboa? Não. Até diria que a esmagadora maioria dos adeptos do Benfica não vive na Lisboa cidade. É o clube da Grande Lisboa? Não. E ser da “Grande Lisboa”, diga-se, não é um primor de identidade. É o clube do Sul? Não, porque se dependêssemos do Sul não seríamos um grande clube; o sul não tem a força demográfica do centro e norte. Somos o clube que representa Portugal? Há quem diga que sim, que somos o clube mais português de norte a sul e das diásporas. Mas, se é esta a nossa identidade, então devíamos ter uma política de contratações parecida à do Athletic Bilbao: o máximo possível de jogadores portugueses.

Sim, eu sei, ter somente jogadores portugueses não seria uma saída possível ou desejável do ponto de vista futebolístico e político, mas a aposta no Seixal era o caminho certo, o caminho do Félix, do Renato, do Bernardo, do Cancelo, do Rúben, etc. Sem academia, e o que ela representa, não há mística. A academia dava um propósito ao clube, formar o jogador português, ser um centro de desenvolvimento para centenas de miúdos pobres do país inteiro, algo que se articulava com aquele que é porventura o único traço de identidade possível do Benfica: ser o clube do povo, sobretudo o povo da Grande Lisboa, uma metrópole cosmopolita onde brancos e negros jogam lado a lado. Sem o espírito jovem, português e popular do Seixal, o Benfica é só poder e dinheiro. Fazer da academia a Camelot benfiquista é o único caminho para uma identidade benfiquista remotamente parecida à do FC Porto. Sem essa identidade, o nosso dinheiro e a nossa influência junto do poder político nunca serão suficientes para superar o FC Porto, que, com muito menos dinheiro e influência, ganha tanto ou mais do que nós. Eles têm um coração que nós não temos.

E, portanto, ficamos com o quê? Somos o quê? Poder. Queremos ganhar a qualquer custo e por isso mudamos de estratégia ao sabor do vento. Não queríamos o Jesus, agora o Jesus já é bom. Queríamos o Seixal mas agora já queremos apenas jogadores feitos. É por isso que estamos agarrados a um presidente que oscila na estratégia ao sabor dos momentos, um presidente que não percebe de futebol mas que percebe tudo sobre as lógicas do poder e da perpetuação do poder.

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