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Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

Começou um novo futebol, diz Duarte Gomes: o futebol enquanto "medicamento" para devolver alegria e esperança à nação

Depois do início da Liga NOS 2020/21, o ex-árbitro Duarte Gomes diz que está na altura de termos um futebol menos egoísta, que dê mais aos adeptos

Duarte Gomes

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O arranque da Liga NOS voltou a trazer, para dentro das nossas casas e para o centro das nossas vidas, o jogo que os portugueses mais apreciam, comentam e seguem.

A autoestima de um povo desenvolve-se também assim: dando-lhe motivos de alegria e distração quando as dúvidas são maiores do que as certezas. Dando-lhe entretenimento e boa disposição, quando o receio é mais forte do que a determinação em ultrapassá-lo.

Nesta fase, de interrogações e mais interrogações, não há muitas coisas que animem as pessoas, mas agora há futebol... e o futebol anima.

O futebol é terapêutico. Devolve a autoestima, o ânimo e a alegria a gente descrente.

O futebol distrai. Leva o pensamento, o medo e o pessimismo para longe de onde estão.

O futebol revitaliza. Ajuda a superar, a desabafar e a esquecer o futuro. Ajuda a focar no presente.

Como diria o meu amigo André Seabra (Portugal Football School, FPF): "Não há medicamento melhor do que este".

E é verdade. É mesmo verdade.

E é essa verdade que eleva a fasquia para quem está no jogo. Para quem é responsável por dirigi-lo, alavancá-lo e protagonizá-lo.

As obrigações agora são outras. São maiores e acrescidas.

Gualter Fatia

O futebol-indústria tem que sobreviver para continuar a crescer e a valorizar, mas agora é tempo de focar num lado mais importante do jogo: o do futebol-paliativo. O do futebol enquanto instrumento para devolver alegria e a esperança à nação. A toda a nação.

Cada agente desportivo - entre os muitos que estão em campo e os milhares que trabalham em torno dele - tem agora essa responsabilidade adicional: a de contribuir ativamente para a alegria de um povo magoado, preocupado e entristecido.

Nesta fase tão complexa e conturbada, em que a maior preocupação é manter o emprego e ganhar para o pão, quem está nesta indústria não se pode dar ao luxo de manter vivas velhas guerras. Não pode continuar a plantar suspeitas, polémicas e acusações.

Este não é o momento para pequenos egoísmos. Se ainda não perceberam, então percebam rápido: estes são outros tempos!

Não há espaço para bicadas e contra-bicadas. Não há paciência para ironias de algibeira, insinuações ou vitimizações.

Mostrem-nos de que fibra são feitos. Mostrem-nos que, quando a questão é outra, superior, a vossa postura transcende-se.

Isso não significa perder o foco. Não significa abdicar de vencer ou deixar de criticar. Não significa perder o rumo nem parar de ambicionar.

Significa compatibilizar essa vontade com outra, maior, mais altruísta. Significa não ceder às emoções momentâneas, evitando comportamentos irresponsáveis e comunicações corrosivas.

Não se diminuam com pequenices. Não agora, não nesta fase. Vocês são mais, bem mais do que alguns grãos de areia atirados para os olhos de meia dúzia de empoeirados.

O país precisa do vosso melhor. Do melhor de cada um. O país precisa de referências positivas, de modelos de conduta, de exemplos a seguir.

Vocês são o futebol e nós precisamos do melhor que o futebol tem para nos oferecer.

Estamos à espera. Não nos desiludam.

Os dias de hoje são diferentes, muito diferentes de todos os outros. Por favor... não sejam iguais.