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José M. Constantino

José M. Constantino

Presidente Comité Olímpico

Aumentar a atividade física dos portugueses: saberá o Governo como fazer?

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve José Manuel Constantino, presidente do Comité Olímpico de Portugal

José M. Constantino

FREDERIC J. BROWN

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O programa do atual Governo estipula o seguinte objetivo: colocar Portugal, na próxima década, no lote das quinze nações europeias com os cidadãos fisicamente mais ativos.

A proposta de Orçamento de Estado para 2021 define um objetivo diferente: colocar Portugal, até 2030, no lote dos 15 países com mais prática de atividade física e desportiva da União Europeia.

Em apenas um ano o objetivo do Governo alterou-se: deixa de ser colocar Portugal entre os 15 mais ativos da Europa, para passar a ser entre os da União Europeia. A diferença é significativa, porque ser 15º em 27 países é bem diferente de que ocupar a mesma posição entre 50 nações.

Vamos admitir que é esta última versão que reflete o objetivo político.

De acordo com o estudo do Eurobarómetro, Portugal ocupava em 2018 (entre 27 países) uma das últimas três posições, com um índice de atividade física de cerca de 32% (igual à Grécia e Bulgária).

A média da União Europeia é de 54 %, precisamente o valor dos países que se situam no 15ºlugar (Espanha, França e Chipre).

Significa isto que, para que o objetivo governamental seja atingido, é necessário que até 2030 cresçamos, aos valores atuais, cerca de 23%, e que os restantes países não alterem os seus números de atividade física.

A pergunta óbvia é singela: que medidas ou políticas de promoção da atividade física estão pensadas para que o objetivo seja atingido?

O Programa Nacional para a Promoção da Atividade Física sob a tutela do Ministério da Saúde começou cheio de fulgor e ao longo do tempo tem vindo a perder dinâmica.

Os programas de promoção da atividade física desportiva desenvolvem-se sobretudo por iniciativa dos municípios, dependendo das iniciativas e dinâmicas locais, mas sem um fio condutor e agregador em termos nacionais.

As iniciativas políticas centrais, independentemente da sua pertinência, não têm escala nacional e pouco acrescentam à dinâmica e incremento de novas procuras desportivas de forma sustentada e regular.

As iniciativas associativas no desporto têm limites ao seu crescimento, atendendo a que estão muito dependentes do financiamento, que é escasso.

O propósito do Governo é de aplaudir, mas sabe o Governo que medidas adotar para que o objetivo seja alcançado?

Será possível ao País, numa década, superar o fosso que o separa dos restantes países europeus?

Num cenário de reduções significativas no financiamento público para o Desporto, como evidencia a proposta de Orçamento do Estado para 2021, recessão na economia e condicionalismos no acesso à prática desportiva, com forte impacto na procura destes serviços no sector privado empresarial ou associativo, que perspetivas se podem antever com vista à sustentabilidade daquele objetivo?

Caberá ao Governo explicar como atingir aquele objetivo que, com os dados disponíveis, se torna evidente - e infelizmente – de difícil alcance.