Tribuna Expresso

Perfil

Opinião

António Vasconcelos Raposo

António Vasconcelos Raposo

Comissão Treinadores COP

O futuro do desporto hipotecado

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve António Vasconcelos Raposo, da Comissão de Treinadores do COP

António Vasconcelos Raposo

Photonews

Partilhar

O desporto infantojuvenil passa por uma acentuada crise que é o retrato da indiferença política. A coisa não é de agora. Já faz tempo que se vinham registando factos que nos levam a fazer esta afirmação: para este Governo, o desporto é mais um furúnculo que incomoda do que um direito constitucional. Não veem nele uma prática cultural, social, educativa e formativa. Que possui valores construídos em cada dia de treino e em cada competição.

Esta crise pandémica não fez aparecer a liderança política, antes fez com que desaparecesse. Mas a vida não para. É um movimento contínuo que faz espoletar situações de grandes complexidades, como são os casos de muitos treinadores que se encontram sem rendimentos, atravessando este período com uma total ausência de apoio. É uma triste realidade que veio, mais uma vez, pôr a nu a fragilidade das condições de trabalho dos treinadores portugueses. Há que diferenciar entre um reduzido número de treinadores que desempenham as suas funções com vínculo profissional da grande maioria daqueles que trabalham Portugal sem qualquer suporte contratual, o que é, também, responsável pela situação desumana em que caíram. Sem rendimentos e com um Governo totalmente indiferente às dificuldades por que passam as famílias destes treinadores.

O Governo tomou conhecimento desta situação. Recebeu propostas da Confederação dos Treinadores de Portugal, com soluções que permitiam ultrapassar, há muito, esta lamentável e cruel situação. Reinou o silêncio. Continua a prevalecer a indiferença política em relação ao desporto. Entretanto, são cada vez mais as crianças e jovens que abandonam a prática do desporto. Em relação a esta terrível situação continuamos a ouvir profundos silêncios, entrecortados com intervenções repetitivas do Secretário de Estado da Juventude e Desporto, vazias de conteúdo, sem propor soluções, centradas no que foi feito e apenas nos apoios financeiros para o Alto Rendimento. Transparece uma falta de confiança nas funções. Resume a sua ação a atitudes reativas. Não há dinâmica e empenhamento para uma aceleração das soluções necessários a esta fase crítica do Desporto infantojuvenil.

O que está em causa é a urgência de soluções para que a juventude possa regressar aos treinos e às competições. A lentidão da Direção-Geral da Saúde é, em muito, responsável por este progressivo abandono do desporto que urge estancar. A verdade é que alguns Dirigentes têm tomado posições públicas alertando para a crise social e desportiva que está a instalar-se no nosso desporto. De entre poucos, podemos reconhecer as posições claras, com suporte de saber, experiência e competência reconhecida pela comunidade da Desporto e projetadas nas palavras e documentos produzidos pelo Presidente do COP, José Manuel Constantino, e pelo Presidente da Confederação dos Treinadores, Pedro Sequeira. Têm posto o dedo na ferida. Têm chamado à atenção de múltiplos problemas. Têm feito muito para que o nosso desporto não fique, neste momento, com o futuro hipotecado.