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Ana Bispo Ramires

Ana Bispo Ramires

Psicóloga de desporto e performance

O desporto não pode parar

O desporto em Portugal está praticamente parado e a psicóloga Ana Bispo Ramires explica que consequências é que isso pode vir a ter no futuro dos indivíduos e da sociedade

Ana Bispo Ramires

Noam Galai

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Nos últimos dias as redes sociais têm sido inundadas com a hashtag #ODesportoNãoPodeParar. Temos igualmente assistido ao manifesto público por parte de uma série de organizações desportivas e seus representantes, no sentido de ser dada maior visibilidade ao momento atual do desporto nacional.

Movidos com esta mesma preocupação, o Comité Olímpico de Portugal, o Comité Paraolímpico de Portugal e a Confederação de Desporto de Portugal enviaram uma Carta Aberta ao Primeiro Ministro (ver aqui), onde reforçam a extrema preocupação com que observam o panorama desportivo nacional.

Mas o que se passa então com o Desporto nacional? Nada. E esta é a questão.

Por outras palavras, pese embora o reconhecimento do papel socio-emocional que o próprio Miguel Guimarães, Bastonário da Ordem dos Médicos, vincou ao afirmar taxativamente no seu discurso referente ao desporto nacional que as atividades desportivas não podem parar, uma vez que “(...) os benefícios do desporto naquilo que é a prevenção das doenças, na formação das pessoas, naquilo que é absolutamente essencial para o nosso equilíbrio interior, para o nosso equilíbrio naquilo que é o nosso trabalho e também para o desenvolvimento dos jovens serem inequívocos, o mesmo requer ainda de validação pelas mais altas instâncias do nosso país.

Uma validação que deve manifestar-se com ações e não “boas intenções”.

Uma validação que deve ir além dos “agraciamentos” nas medalhas conquistadas, focando-se numa reflexão aprofundada que possa, de uma vez por todas, colocar o Desporto num vértice estratégico da nossa sociedade – na realidade, o seu lugar desde sempre, mas por esforço próprio.

É inegável o esforço que o país está a fazer no sentido de dar a melhor resposta aos desafios que esta pandemia coloca.

É inegável que as equipas que estão na linha da frente para articular uma resposta estratégica e que têm a responsabilidade política de o fazer, têm estado há quase oito meses em sobre-rendimento e, por isso mesmo, possam elas mesmas estar com os seus níveis energéticos quase esgotados e, mesmo assim, continuam a colocar o seu espírito de missão acima dos seus próprios recursos pessoais, mantendo o seu foco na luta face a uma situação jamais vivenciada.

É inegável, contudo, que por esta mesma razão, seria importante solicitar (ou aceitar) a ajuda das diferentes instituições que já procuraram dar o seu contributo para uma melhor resolução e, acima de tudo, saber ouvir quem possui um aprofundado conhecimento da situação e da realidade desportiva nacional.

E este é, possivelmente, o passo que urge dar.

A urgência do Desporto

Contrariamente ao reconhecimento social do papel do Desporto nas Sociedades Civis, já validado pelo Conselho Europeu, a Comissão Europeia e o Parlamento Europeu ao veementemente incentivarem os Governos dos Estados-Membros a destinarem uma parte dos apoios comunitários para auxiliar os respetivos contextos de desporto a sobreviver aos impactos da crise, por cá mantemos uma assustadora visão a curto-prazo, revelando um enorme desconhecimento dos trágicos desenvolvimentos que acontecerão na nossa sociedade caso o Desporto Nacional veja a sua sobrevivência em risco.

Do plano económico (que não me compete abarcar, mas que certamente será reconhecido pela percentagem que representa no PIB – mais de 2%, a nível europeu), ao plano social e de saúde mental dos portugueses, passando pelo próprio futuro do desporto nacional, tudo será posto em causa, senão vejamos, por exemplo:

- O impacto do desporto no Turismo (e do Turismo Desportivo) é fundamental e encontra-se perfeitamente documentado e, em boa verdade, a capacidade de atrair grandes eventos europeus e mundiais para o nosso país resulta em boa medida não só da imagem que possamos ter como país organizador, mas também da credibilidade e legitimidade que cada atleta angaria cada vez que, nos palcos internacionais, eleva a bandeira de Portugal;

- A capacidade de assegurarmos a continuidade de renovação geracional de novos talentos, capazes de competir ao mais elevado nível mundial, resulta inevitavelmente da nossa capacidade em responder rapidamente ao vazio em que nos encontramos, sob pena de se assistir, daqui a uns anos, a um enorme vazio geracional;

- O desporto de formação cumpre uma função educativa e social inimaginável que trará para a sociedade civil um enorme fosso no que respeita a um conjunto de competências extraordinariamente relevantes para o desenvolvimento de cidadãos capazes de contribuir de forma decisiva para a subsistência e elevação da nossa Sociedade Civil – através dele se “treina”, a título de exemplo, o respeito por si próprio, pelo outro e pelas organizações, a disciplina e autonomia, o fair-play, a cooperação, a competitividade e foco no esforço pessoal para atingir objetivos a médio/longo prazo, uma melhor e maior resiliência emocional, através de tantos outros mecanismos de regulação emocional.

Através dele se prepara o Futuro – um futuro que queremos não só deixar aos nossos descendentes, mas também onde desejaríamos viver a nossa senioridade.

Por tudo isto, de facto, a hashtag deveria mudar para “O desporto não pode esperar”. Porque de facto, não pode. #ODesportoNãoPodeEsperar

A Psicologia da Performance encontra-se direcionada para a otimização das competências psico-emocionais dos sujeitos (tais como liderança, motivação, capacidade de superação, desenvolvimento de esforço em contexto de frustração, confiança, entre outras), com o intuito de elevar o seu desempenho (em contexto desportivo, académico, artístico ou empresarial), qualidade de vida e bem-estar.