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Morte pela cura? A nossa saúde física e psicológica precisa de manter rotinas com a normalidade possível (por Duarte Gomes)

O ex-árbitro Duarte Gomes pede "cabecinha fria" a lidar com a pandemia de covid-19 e ressalva que "não devemos nunca entregarmo-nos à morte pela cura.

Juan Carlos Toro

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Pelo que se tem visto em meses recentes, não há nada como uma "boa" pandemia para medir a forma de pensar do povo. Nessa matéria - o de se perceber o quilate intelectual/cultural das pessoas com que vivemos -, o futebol sempre foi um barómetro mais ou menos válido, embora o excesso de emoções o torne falível. Demasiado falível.

Agora este novo coronavírus não. Este tem a capacidade de demonstrar o que já era mais ou menos óbvio: há quase sempre duas formas predominantes de pensar. Duas formas distintas de ver a mesma realidade. Geralmente são extremadas e geralmente são opostas.

Se de um lado alguém diz preto, do outro gritam branco. Se de um lado alguém diz não, do outro dizem sim. Às vezes por convicção, outras por embirração. As coisas são como são e a natureza humana está longe de ser um segredo bem descodificado.

Nesta período mais desafiante, há quem esteja em histeria, alarmado e manietado pelo medo (ainda que não o reconheça ou assuma) e há quem ache que esta "gripe" é apenas uma conspiração política desenhada para matar-nos de outras patologias ou para privar-nos da liberdade plena.

Como veem, as opiniões moram nos antípodas e não é preciso ser nenhum génio para concluir que ambas estão erradas: a pandemia não vai destruir o planeta, não vai matar mais do que outras doenças nem vai conduzir-nos ao fim dos tempos. E não. Não foi criada em laboratório por farmacêuticas corruptas, que querem controlar o homem de forma remota. Não são fruto de uma cabala do mundo contra o mundo.

É uma questão de sensatez e racionalidade.

É óbvio que este SARS-CoV-2 existe. É real. É um coronavírus potencialmente perigoso, sobretudo para quem for mais vulnerável. Há provas factuais e irrefutáveis disso, todos os dias, em todos os lados. É também óbvio que ainda não tem cura conhecida e que se transmite com facilidade. E é ainda mais óbvio que a forma mais eficaz de evitar a sua propagação é atuar com responsabilidade social.

Mas não deixa de ser também verdade que este coronavírus é apenas mais um entre tantos, mais ou menos graves. Mais ou menos contagiosos. Mais ou menos fatais.

A humanidade sempre viveu sob a sombra das doenças duras e difíceis. Não é bom, inibe-nos e não raras vezes, destrói-nos. Afasta-nos injustamente de quem mais amamos, mas nem por isso paramos. Nem por isso rendemo-nos.


E é esse o caminho a seguir aqui também: até que a ciência descubra a resposta (e é há ciência que cabe descobri-la), a solução mais saudável é continuarmos a viver com esta nova realidade de forma ponderada e cuidada, mas sem ficarmos reféns do que quer que seja.

Devemos estar atentos, acatar as recomendações e cumprir com a estratégia delineada, mas não devemos nunca entregarmo-nos à "morte pela cura". A nossa saúde física e psicológica precisa de manter rotinas com a normalidade possível.

Nós não nascemos para morrer dentro de casa nem para nos matarmos fora dela.

Equilíbrio. Bom senso. Cabecinha fria.

Menos aproveitamento político (não é o momento certo para fazer essas contas) e mais espírito de colaboração genuíno, sem truques na manga.

Juntos damos a volta a isto.