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Pedro Sequeira

Pedro Sequeira

Presidente da Confederação de Treinadores de Portugal

Desporto: a verdadeira “bolha”

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve Pedro Sequeira, presidente da Confederação de Treinadores de Portugal

Pedro Sequeira

Phil Walter

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Como qualquer cidadão do mundo, temos acompanhado a evolução da pandemia. Em Portugal, concretamente, o primeiro grande impacto iniciou-se com a declaração de estado de emergência. Foi nessa altura que diversas áreas da nossa sociedade sofreram um conjunto de transformações e alterações, com especial destaque para o Desporto Federado e a Atividade Física organizadas (leia-se ginásios), que viram todas as suas atividades suspensas. Aquilo que se desejava que fosse temporário veio a tornar-se definitivo.

Definitivo??? Sim, definitivo.

Entidades (Federações, Clubes, Ginásios, etc.) viram a sua atividade reduzida a cerca de 60/70%. Nalguns casos, nomeadamente o Desporto Federado, viu a sua atividade reduzida a 80/90%. É que é preciso perceber que um Ginásio a 30% e com todo o investimento que teve de fazer para poder estar aberto e com tão pouco clientes, passou a sobreviver e não a viver. No desporto federado é igual.

A formação só pode treinar com muitas restrições. Os jovens não podem jogar andebol ou fazer judo (são exemplos), só alguns exercícios. Não percebeu a diferença? Imagine comprar um bilhete para ir ao cinema para ver um filme de 2 horas e dizerem-lhe: “Pode ver apenas 30 minutos do filme”. Outro facto: no desporto profissional, nas modalidades com competições europeias ou provas de seleções nacionais, as exigências com os testes para detetar o Covid-19 são muitas.

No desporto federado de rendimento a frequência de testes é efetuada como medida de prevenção. Detetam-se casos sintomáticos e assintomáticos, porque há muitos testes. Concordo e percebo as medidas, mas são motivo de reflexão. Ora vejam: imaginem que num dia à hora de ponta, em Lisboa e no Porto, resolvia-se testar todos os utentes do metropolitano. Ou então que se testavam todos os alunos de uma escola ou de várias escolas ou, ainda, todos os funcionário de uma empresa. O que ia acontecer? Muito provavelmente íamos chegar à conclusão que nos diversos contextos, quando comparados com o desporto federado, o número de casos positivos sintomáticos e assintomáticos seria igual ou superior.

Por fim, é interessante verificar que na maioria dos casos positivos encontrados no desporto federado a origem da contaminação não vem do da prática desportiva em si. Vem de fora (contacto com familiares, amigos, outros). Isto significa que o desporto está a ser contaminado de fora para dentro e não de dentro para fora. Porquê? Porque desde sempre o desporto federado (e, por justiça, a atividade física organizada) foi (e é) organizado.

O desporto é uma verdadeira bolha, controlada pelos dirigentes e treinadores de clubes, de federações. Por isso, não é justo, ao fim de sete meses, continuar a não dar ao desporto as mesmas oportunidades que a outros sectores da sociedade. Até porque a “solução” para o abrandar da pandemia é analisar e estudar “o que vem de fora”. É nesse contexto que as medidas poderão atenuar ou mesmo abrandar e resolver a pandemia. O contexto desportivo está bem e recomenda-se.