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Dulce Félix

Dulce Félix

Atleta olímpica

Ninguém mais do que nós quer chegar o mais à frente possível

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve Dulce Félix, atleta olímpica

Dulce Félix

Ian MacNicol

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Cresci em São Martinho do Conde, onde o Atletismo apareceu na minha vida por acaso. Nem gostava muito de correr, mas na escola faltava uma para fazer a equipa e lá fui eu. Ganhei o gosto pela corrida e daí até chegar ao ACR Conde, a minha primeira equipa, foi um abrir e fechar de olhos.

As primeiras medalhas começaram aparecer, depois os troféus e o entusiasmo do meu pai fizeram o resto. Nunca mais parei e continuei a correr até ir para o FC Vizela fazer a minha formação nos escalões mais jovens. E que grande formação tive a oportunidade de fazer com pessoas competentes que me ajudaram imenso até à minha primeira seleção nacional como júnior!

O abandono da escola por vontade própria, ir trabalhar para uma fábrica durante oito horas, nada me tirou a vontade de continuar, pois comecei a perceber que poderia estar aqui o meu “ganha-pão“, pois via atletas que só viviam do Atletismo. Na altura, os prémios eram muito bons, e eu queria seguir esse caminho. Chegou um momento, já com a minha treinadora, Sameiro Araújo, em que tive de fazer uma escolha: deixar de trabalhar e optar por me dedicar 100% ao Atletismo. Sabia que não havia qualquer risco, pois, se as coisas não corressem bem, a fábrica estaria sempre ali para eu trabalhar.

Já com as cores do SC Braga, a evolução foi enorme e os resultados começaram a aparecer. Em 2008, os Jogos Olímpicos de Pequim ficaram muito perto, o que me deu mais confiança e determinação para o futuro.

A primeira lesão a sério aconteceu em 2010, quando parti um dedo do pé em plena competição - o escafoide. É muito raro partir-se, mas o que é certo é que partiu mesmo, no crosse curto, em Vagos. Mesmo assim terminei a prova e passados 30 minutos não conseguia andar. Tive de ser operada e quatro meses depois estava a competir no Europeu de Barcelona, nos 10 000 metros. Recuperei muito bem.

O pior momento da minha carreira foi a perda do meu pai, em 2013. Ele acompanhava-me, em todo o lado, nos treinos longos de domingo. Se não me fosse dar os abastecimentos, ficava chateado comigo; se houvesse uma competição perto de casa e não me fosse ver, ficava danado. Foram seis meses terríveis, nos quais o Ribas teve um papel importante. Andei à procura da marca de qualificação para o Mundial até a última e consegui. Fui, correu-me muito mal. Só eu sei o que passei nessa fase. Estava a preparar a Maratona de Nova Iorque, os treinos corriam muito bem, mas a cabeça não acompanhava.

Surgiu-me a proposta do Maratona Clube Portugal, onde estive três anos. Deu-me estabilidade para acreditar ainda mais no meu potencial e foi assim que aconteceu depois representar o clube do coração, o SL Benfica. Foi a cereja que faltava para em termos emocionais estar a 300%. O carinho das pessoas, do clube, tudo ajuda para que os resultados apareçam com toda a naturalidade.

A decisão de ser mãe sempre foi muito desejada e tive o apoio incondicional do meu clube, SL Benfica, da FP Atletismo, do COP e do meu patrocinador, Adidas. Todos me apoiaram, renovando-me contratos, o que me deu e confiança e responsabilidade para, quando regressasse, não falhar. E os resultados apareceram ao mais alto nível.

Stephen McCarthy

O momento mais alto da minha carreira aconteceu em 2012, quando fui campeã da Europa, em Helsínquia, e tive a sorte de o meu pai me ver na televisão. O Ribas conta que ele só dizia: “Não olhes para trás, rapariga, não olhes para trás.“ Arranquei a faltarem quatro quilómetros e nos últimos 500m acho que me doía o pescoço de tanto olhar. Sem dúvida que, passados três anos depois de ter arriscado no Atletismo, ser campeã da Europa foi um momento único.

Ser olímpica em Londres 2012 e no Rio 2016 faz parte daqueles momentos que não dão para descrever com palavras, são momentos de emoções muito fortes, em que consegui resultados de excelência. Nós queremos sempre mais, ninguém mais do que nós quer chegar o mais à frente possível. Ter sido campeã da Europa foi a realização de um sonho, mas ainda quero um resultado entre o top 8 dos Jogos Olímpicos. É para isso que trabalho todos os dias e eu e o meu treinador sabemos que há margem de progressão para isso.

O corta-mato foi a disciplina onde mais medalhas conquistei a nível europeu, onde mais títulos consegui a nível nacional, mas temos uma referência que nos faz sonhar, o recorde racional da meia-maratona, 1h08´32”. Isso e os 42 195m da maratona. Neste momento, é nisso que estou focada e é para isso que trabalho arduamente todos os dias.

Os momentos mais felizes da minha carreira são três: o nascimento da minha filha Matilde, a passagem de testemunho da Sameiro Araújo para o Ribas e o regresso à competição, depois de ter sido mãe, ao mais alto nível, com a minha segunda melhor marca de sempre na Maratona de Valência 2019, com 2h25´22”.

Agora, o meu pensamento é só um: estar presente em mais dois Jogos Olímpicos. É para isso que eu e a minha equipa trabalhamos diariamente. No imediato, o foco está em Tóquio 2021.