Tribuna Expresso

Perfil

Opinião

Os primos já não nos gozam

Manuel Neves recorda tempos que já lá vão, em que a seleção francesa se superiorizava sempre a Portugal: "Para a nova geração da seleção portuguesa, os franceses são um primo como os outros, com os quais fala a mesma língua (provavelmente cheia de tiques da internet que eu já não apanho) e de quem não tem medo nenhum"

Manuel Neves (Lá em Casa Mando Eu)

FRANCK FIFE

Partilhar

Para o adepto de futebol clubístico (como é o meu caso) há vários motivos – sobretudo emocionais – para a seleção nos dizer menos do que o nosso clube, mas também há vários racionais para que o nível de entrega não seja o mesmo, sendo um deles o da rivalidade. Quando o nosso clube perde, há colegas de trabalho a ignorar, o café a que íamos antes da pandemia era uma emboscada e há o fastidioso massacre de Whatsapp, em que recebemos a mesma piada por diversas vias – num caminho eterno de remorsos, vinganças e memórias que constroem as rivalidades. Nas seleções é raro haver isso, ou pelo menos é uma coisa muito mais construída (tenho sérias dúvidas que algum dos adeptos ingleses que canta canções sobre a II Guerra Mundial nos jogos com os alemães tenha mesmo participado na guerra). Portugal foi eliminado do Mundial 2018 pelo Uruguai e duvido que, tirando exceções dignas de reportagem, alguém tenha sido gozado por um uruguaio. O mundo está extraordinariamente globalizado, mas o uruguaio de quem eu estou mais próximo é de Darwin Nuñez, mas não temos o número um do outro. E isto é tudo verdade, menos com a França.

Quando eu era pequeno passava sempre férias em família em casa da minha avó. Enquanto os meus pais e tios comiam e bebiam, eu e os meus primos brincávamos em várias línguas porque nós éramos portugueses, mas havia também sul-africanos e franceses – nascidos de tios emigrantes, um lugar-comum muito português. E eu lembro-me de, naquelas noites de Verão, sofrer a ver os Jogos Sem Fronteiras, na ânsia de ver Olhão derrotar uma vila francesa qualquer, para chatear os meus primos como se Portugal tivesse conquistado quatro medalhas olímpicas (foram zero nos Jogos de 1992 – nos Olímpicos, que não eram apresentados pelo Eládio Clímaco nem tinham um árbitro francês).

É bastante preconceituoso, mas espectacularmente comum, esta antipatia (desportiva, meus caros. Deixemos a normalização da xenofobia para outros) pelos franceses. Os espanhóis veem neles rivais, os ingleses cantam-lhes canções sobre a II Guerra como se a tivessem ganho sozinhos, sem os americanos, e nós, portugueses, nunca gostámos do complexo de emigrante e sonhámos anos com 2016. É que na progressiva escalada da seleção nacional na hierarquia mundial – tendo passado do título moral de “Brasil da Europa” até a campeão europeu em título – dois monstros nunca foram verdadeiramente quebrados: italianos e, sobretudo, os franceses.

O primeiro Europeu da história de Portugal (França84) terminou diante da seleção da casa, com uma derrota por 3-2 no prolongamento. Esta foi a competição que celebrou Jordão e Chalana

O primeiro Europeu da história de Portugal (França84) terminou diante da seleção da casa, com uma derrota por 3-2 no prolongamento. Esta foi a competição que celebrou Jordão e Chalana

Getty Images

A seleção italiana marcou a minha geração com o apuramento para o Mundial de 1994: o 1-3 nas Antas (com o golo português a ser marcado de forma espectacularmente ilegal por Fernando Couto) e o 1-0 em San Siro tiraram-nos o sonho de ver Futre e a geração de ouro jogarem um mundial juntos. Além disso, sobretudo no início da década de 90, as equipas italianas eram um monstro inacessível (sendo eu, como benfiquista, um dos principais traumatizados, depois das derrotas com o Milan em 1990, Roma em 91, Juventus em 93 e Parma em 1994). Mas com os franceses era diferente, porque – apesar de não a ter visto – cresci com o mito que a derrota de Portugal com os franceses em 1984 tinha sido uma grande injustiça. Na verdade, foi sobretudo cruel, mas a superioridade de Platini e dos seus não nos foi patente, não foi aceite. Aos italianos era impossível não reconhecer a classe e o veneno, mas com os franceses não. O jogo em que Bento brilhou na baliza e Jordão fez o golo esteticamente mais incrível da selecção até ao salto em peixe de JVP no Euro 2000 contra os ingleses foi uma derrota cuja homologação nunca foi aceite pelos portugueses. Nunca nos interessou que Portugal só tivesse ganho um jogo nesse Europeu e que só lá estivesse chegado através de um penálti contra a URSS em que Chalana caiu quatro metros fora da área. Tratámos sempre os franceses como primos que nos gozavam se perdêssemos os Jogos sem Fronteiras, como vizinhos capazes de nos mandar a pior mensagem quando o nosso clube perdesse.

Recordo-me de, em 1996, festejar um golo de Rui Costa em Paris e acreditar que – nem que fosse num amigável – ia ter uma razão para chatear os meus primos, mas o resultado final foi de 3-2 para os franceses. Diz-me a Wikipedia que ainda se seguiu outro amigável em Braga, em 1997, com nova vitória deles, mas o segundo grande capítulo da rivalidade vem em 2000, nas meias-finais do Europeu. Depois da comparação infantil entre Chalana e Platini, perdemo-nos dias a discutir Figo e Zidane e nunca, depois daquele golo de Nuno Gomes após insistência de Sérgio Conceição, se admitiu que aquela derrota fosse justa. Pouco nos importa que Abel Xavier tenha mesmo feito penálti, mas ver a geração de futebolistas que deixou sempre o país à espera de um grande feito cair assim, por tão pouco, tirou o que faltava de racionalidade. Nunca, em Portugal, se admitiu o jogaço que Zidane fez nessa noite, e só vários anos depois se disse – em surdina - que, talvez, o árbitro pudesse ter acertado naquela decisão (mas sempre, sempre, com aquela boca amargurada que revelava o nosso complexo de inferioridade: “queria ver se marcava se fosse ao contrário…”). Eram duas meias-finais e duas gerações de portugueses traumatizados. Os franceses eram aquele primo que, à mesa, fazia uma piada sobre nós que punha toda a gente a rir, que nos enfurecia e irritava tanto que nos fazia imaginar várias respostas imaginárias na nossa cabeça, maneiras de dar a volta que fizessem com que os familiares também se rissem deles ou outro universo em que a cabeçada de Abel Xavier não era defendida por Barthez ou em que o remate de JVP entra. Com os italianos nunca sentimos vontade de nos revoltar porque, de facto, as piadas eram bem metidas e até nós nos ríamos de nós próprios. Mas as derrotas com os franceses eram uma piada de mau gosto, sem requinte nenhum. Quem é que acha piada a franceses? Como crueldade, segue-se um 4-0 em Paris um ano depois, em que Figo foi testado a 10. São gauleses e fazem o céu cair na nossa cabeça.

A seleção portuguesa continua a crescer e a ficar cada vez mais perto. Torna-se, por exemplo, o calvário de ingleses e holandeses (estes últimos viram fregueses habituais desde que tiraram Portugal do Euro 1992, com eliminação do Euro 2004, Mundial 2006, Euro 2012 e Liga das Nações em 2019. E, além disso, perdem dois amigáveis, sendo este texto uma excelente desculpa para se ver o golo de Pedro Barbosa que deu a vitória num amigável em Eindhoven em 1995).

Segue-se a meia-final no campeonato do mundo de 2006, com a terceira derrota em três meias-finais. Já não interessavam as gerações, os treinadores, os contextos: parecia escrito. Chalana, Figo e Cristiano Ronaldo não eram suficientes. Para eles seríamos sempre os porteiros dos subúrbios de Paris. Foi isso que o golo de Eder representou. Além de um título, a queda de um monstro. Como se Poulidor finalmente ganhasse o Tour, como se o Torino finalmente humilhasse a Juventus. A vitória no Euro 2016 foi absolutamente histórica, mas incrivelmente mais saborosa por ser em Paris e contra a França. Vingou a noite de São João de 1984 e o Euro 2000. Depois de anos a levar bocas foleiras à mesa, foi uma resposta muito portuguesa, que pôs a família a rir e o primo francês a levantar a mesa.

É por isso que quando Portugal entrar em campo, no Estádio da Luz, contra os franceses, já não vai carregar as costas o peso do destino ou outras tretas melancólicas da minha geração. Para a nova geração da seleção portuguesa, os franceses são um primo como os outros, com os quais fala a mesma língua (provavelmente cheia de tiques da internet que eu já não apanho) e de quem não tem medo nenhum. Para quê voltar a ver os Jogos sem Fronteiras quando se tem o golo do Eder?