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Um alemão e um inglês entram numa conjetura… (ou porque comparar Schumacher com Hamilton é quase impossível)

"Na última década, a Fórmula 1 mudou tanto que os carros de hoje pouco têm em comum com os de há dez anos, quanto mais os de há 20", explica Pedro Boucherie Mendes, no dia em que Lewis Hamilton se sagrou campeão mundial pela sétima vez, alcançando assim Michael Schumacher

Pedro Boucherie Mendes

PA Wire - PA Images

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Lewis Hamilton é o campeão de Fórmula 1 de 2020. Na prática ninguém está surpreendido, mas desta vez a relevância cresce porque o inglês iguala o recorde de títulos do alemão Michael Schumacher, com sete cada um. Até há meia dúzia de anos não se julgava possível, mas aconteceu. ”Sempre julguei que os recordes existiam para ser batidos” disse um dia Schumacher, que hoje é um recluso em sua casa, provavelmente em coma, ninguém sabe. Desde a sua queda em dezembro de 2013, numa descida enquanto praticava esqui nos Alpes franceses, nunca mais ninguém o viu.
Lewis já ultrapassara o alemão em número de vitórias e pole positions. Pouca gente do circo da Fórmula 1 duvida que o piloto inglês, com antepassados da Ilha de Granada, consiga um oitavo e inédito campeonato em 2021, dado que os regulamentos não se alteram, tornando assim mais provável do que nunca um domínio completo da Mercedes.

Comparar Schumacher com Hamilton é quase impossível e não apenas por terem estado no auge em alturas diferentes. Na última década, a Fórmula 1 mudou tanto que os carros de hoje pouco têm em comum com os de há dez anos, quanto mais os de há 20. O alemão é campeão da era V10, em que os carros eram mais duros, mais dependentes da pilotagem, mais mecânicos, analógicos, bestas de potência, ruidosos, com reabastecimentos a meio da corrida previstos por regulamento, pneus de marcas diferentes, em que os testes eram possíveis e em que era na pista, nas garagens, nas boxes e ao volante, que se sentiam os carros. Nos gabinetes faziam-se as coisas que sempre se fizeram nos gabinetes, como afiar lápis e beber café.

Hamilton é o campeão da era moderna, dos V6, em que os motores são unidades de potência, de combustão com unidades híbridas evoluídas coadjuvantes, mas sobretudo onde há sensores e telemetria para tudo o que se possa imaginar, com exércitos de engenheiros muito bem pagos em gabinetes, por vezes a milhares de quilómetros de distância, a simular, adaptar e a cruzar o mundo real com o mundo virtual, em luta por décimas de segundo. Os reabastecimentos foram proibidos, os testes muitíssimo limitados, apenas a Pirelli fornece pneus e aos pilotos é exigida menos força física e de certa forma menos coragem em pista. Hamilton é uma das poucas exceções, mas a grande maioria dos pilotos atuais também faz corridas virtuais, em simulador, como qualquer um com a sua Playstation em casa. Os carros atuais não têm ABS ou controle de tração, proibidas por regulamento e são muito mais seguros, aerodinâmicos e fiáveis. Também fazem menos barulho, bastante menos.

Tudo isto não é mero elenco de mudanças, feito para conhecedores. Se os carros no tempo de Schumacher tivessem a fiabilidade dos de hoje, o alemão teria vencido mais títulos, como em 1999, em que uma avaria mecânica o levou ao despiste, fez partir uma perna e ficar de fora três meses.

Darren Heath Photographer

Desporto de equipa de elite, o mais tecnológico de todos, dependente de pneus, motores, engenharia e orçamentos de muitos milhões, a Fórmula 1 atual mantém ainda assim o elemento humano como primordial. Hoje não há um mau piloto na grelha, praticamente todos poderiam ser campeões do mundo no carro certo e com as circunstâncias a favor, mas nada é garantido e ainda bem. A competição que nos interessa é entre humanos, ninguém veria uma série de carros conduzidos por robôs.

É fácil, porque verdadeiro, afirmar que Schumacher era mais rufia que Hamilton. Schumi, como passou a ser conhecido a dada altura, chegou a ser desqualificado do campeonato de 1997, por ter tentado vencer o título, atirando Jacques Villeneuve para fora da pista na última corrida.

O inglês não é um príncipe, mas desde há uns anos, em especial desde que o seu colega Rosberg se retirou inesperadamente depois de ter sido campeão, parece um guerreiro Jedi que atingiu o mais alto grau da sabedoria. Sereno e adulto, domina, vence, reage à adversidade, compete, obtém a pole position, a volta mais rápida e ganha corridas como se estivesse sozinho na pista. No pico máximo da sua forma, Lewis faz tudo com limpeza, cirúrgico, quase sobrenatural e neste campeonato, ainda que marcado pelo Covid, nunca ninguém duvidou que pudesse ser ele o vencedor.

O alemão Nico Rosberg conduzia um Mercedes igual, sabia ser um piloto inferior a Lewis e apostou nas provocações e mind games para o derrotar. E conseguiu-o, num ano em que Lewis teve várias desistências e em que foi teve também ele práticas menos desportivas em pista.

Foi a partir da derrota que Hamilton se tornou mais recolhido e menos pop star, optou por um regime vegetariano e acabou por se tornar num ativista assumido. Na pista passou a errar menos, a ser menos vulnerável à sua disposição, melhorou e muito a técnica que já era superlativa, aprimorado o seu estilo e intensificando a preponderância. Ajuda, como é evidente, ser o primeiro piloto da melhor equipa na história da Fórmula 1, a atual Mercedes e ter a seu lado o simpático, mas funcionário, Valteri Bottas. Mesmo heptacampeão, Lewis ainda não renovou o contrato e fala-se que finalmente poderá ter um salário como os de Schumacher, que a seu tempo ganhou muito mais dinheiro com a Fórmula 1 que o britânico.

Murad Sezer

O tricampeão mundial Ayrton Senna morreu num Williams, equipa para onde se mudara e na qual esperava bater o recorde de cinco campeonatos do mundo de Fangio. Michael Schumacher, que para todos os efeitos seria o seu sucessor e com quem já vinha tendo disputas na pista, venceu a corrida em que Senna morreu, em Imola, no primeiro de maio de 1994. Venceu e festejou no pódio, não revelando particular consternação com o sucedido num fim de semana terrível, no qual dois pilotos viriam a perder a vida. As acusações de arrogância e soberba tornaram-se ruidosas, mas com o volante nas mãos Schumacher era inacreditavelmente melhor e ocupou à bruta o lugar de melhor piloto do grid de Senna, Mais tarde, Schumi diria que o acidente lhe pareceu igual a muitos outros e que nunca esperou que o brasileiro morresse, fazendo questão de demonstrar emoção a eito em corridas seguintes. Também passou a reverenciar Senna como ídolo e referência nos anos seguintes, como Hamilton também faz. Se é por respeito aos fãs e a uma modalidade ou por calculismo, não se sabe, mas Senna, mesmo tendo menos quatro campeonatos que o alemão ou o inglês, permanece vivo no coração de todos os adeptos e está lá sempre, connosco, em todas as partidas.

No ano da morte de Senna, Schumacher venceu o seu primeiro campeonato com um Benetton, com motor Ford. Tinha 25 anos. No ano seguinte foi outra vez campeão pela Benetton e, em 1996, transferiu-se para a Ferrari, onde ficaria onze anos. Teria ido para a equipa que quisesse, mas o seu manager escolheu a scuderia, então uma equipa nada competitiva, porque calculou que ele e o seu cliente poderiam ganhar muito mais dinheiro. Tinha razão.

Sem ver o título desde 1983, a Ferrari conseguiu ser campeã por equipas em 1999 mas só em 2000, quatro anos depois de passar a vestir de vermelho Ferrari é que o bicampeão Schumacher voltou a ser o número um. Estava encontrado o rei da Fórmula 1. Com Senna morto, Prost e Mansell retirados e um Alonso que ainda não era Alonso, ao lado de Schumacher tínhamos direito a todo um clã, mulher, mãe, pai, manager, publicista. Exultante com as vitórias, até naquela corrida com seis carros em que Tiago Monteiro ficou em terceiro, entre o distante e o falsamente simpático, sempre luminoso, em especial depois de mais uma matreirice em pista, o Schumacher com queixo proeminente e sorriso de Joker, tornou a Fórmula 1 aborrecida e pareceu sempre mais o vilão de um filme que se fizesse sobre a Fórmula 1, com Tom Cruise como protagonista, do que o líder, campeão indisputado e rei do circo que de facto era.

Os alemães descobriram a Fórmula 1 e deliravam com Schumi, mas não se pode dizer que o alemão colecionasse fãs por todo o mundo. Lembro-me bem. Quando Schumacher dominava, era como se tivesse feito um pacto com o diabo. Ou vencia, ou ficava em segundo por alguma razão, ou desistia numa qualquer manobra para tentar colocar o adversário fora de pista ou o carro tinha um problema. Com o alemão, como agora com Hamilton, nunca havia um dia mau ou mais ou menos.

Schumacher saiu da Fórmula 1 no final de 2006, rico e gordo de títulos, depois de perder por duas vezes para Alonso. Ainda ficou na Ferrari como conselheiro, mas regressou inesperadamente em 2010, aos 41 anos, para ajudar a Mercedes oficial a criar uma equipa que viesse a dominar o desporto. Estávamos prestes a entrar noutra era. A segunda vida da carreira de Schumi foi uma relativa desilusão para ele e para os fãs e terá danificado o seu legado, apesar de o ter humanizado. Afinal o campeão também perde. O retrato piora porque Nico Rosberg, seu colega, teve melhor palmarés que Schumi, que nunca pareceu à vontade naquele Mercedes com dificuldade para controlar a temperatura dos pneus.

PATRICK HERTZOG/Getty

A Fórmula 1 transitava para a era híbrida ao mesmo tempo que as equipas aproveitavam as inovações tecnológicas em geral, em especial a banda larga e computadores cada vez mais potentes e complexos, para fazer crescer os orçamentos e as estruturas. As marcas de tabaco, os grandes financiadores, tinham sido banidas de vez e eram as marcas de automóveis quem apostava a sério. Schumacher pareceu sempre um peixe fora de água e teve várias penalizações por manobras perigosas em pista. Aquela ainda não era a Fórmula 1 em que Hamilton viria a reinar, mas não era de todo a que Schumacher dominara.

O carro da Mercedes teve uma grande evolução, mas Schumacher só obteve um pódio nas três épocas em que ficou na equipa, até ser substituído por precisamente Lewis Hamilton para a época de 2013.

Hamilton estreou-se como companheiro de equipa de Alonso na McLaren em 2007 e só não foi campeão por um ponto. Primeiro e único piloto negro do desporto, foi o maior relâmpago novato a aparecer até Verstappen chegar. No ano seguinte Lewis chegou a campeão, mas teria de esperar seis anos para repetir o feito pela Mercedes. O inglês saiu da McLaren e pouca gente achou que tivesse sido um passo bem dado, incluindo o seu pai. Se nem o heptacampeão Schumacher conseguira levar a Mercedes às vitórias, o mais certo era Hamilton vir a lamentar a gestão da sua carreira. Quem segue a Fórmula 1 de perto sabe perfeitamente como uma decisão destes pode arruinar para sempre a entrada certa na enciclopédia, como Fernando Alonso poderá atestar, ele que é o rei das decisões erradas no que toca a mudar de equipa. Porque quem segue a Fórmula 1 de perto sabe que só se é campeão com carro à altura.

Com Hamilton, aconteceu o contrário e a Mercedes em crescimento que tirou brilho à vida desportiva de Schumacher, torna-se o palco triunfal de Hamilton, numa daquelas circunstâncias que vão figurar para sempre nas listas e curiosidades de momentos que definem carreiras.

Ao contrário de quase todos os pilotos, incluindo Schumacher, Hamilton nunca pilotou um mau carro na Fórmula 1, motivo pelo qual é o único a ter vencido pelo menos uma corrida em todas as épocas em que participou. Já o alemão foi capaz de ser campeão do mundo numa equipa média, a Benetton, conseguiu qualificar-se em sétimo na primeira vez que entrou num carro de Fórmula, como substituto, teve a paciência de esperar que a reestruturação da Ferrari desse frutos e aguentou estoico aqueles três anos na Mercedes, no meio do pelotão.

Um e outro correm desde crianças e vieram de baixo, de muito baixo, com as famílias a fazer sacrifícios durante anos pelas suas carreiras. Hamilton é certamente mais moderno e cosmopolita, com as suas paixões pela moda e pela música. Schumacher conduzia mais com os cotovelos de fora, tem uma lista negra de polémicas e incidentes que jamais sairão da sua biografia e nunca pareceu estar completamente à vontade no circo, relaxado, como se qualquer instante de descontração custasse caro.

Dan Istitene - Formula 1

Ainda que Hamilton tenha sido campeão em duas eras, com dois tipos de carros muito diferentes, os títulos do alemão custaram mais a ganhar, isso é inequívoco. Era ele contra o mundo? Era, era mesmo, pelo menos antes de ser um imperador na Ferrari, onde o seu empenho, capacidade de congregar a equipa em seu redor e brilho viraram a complicadíssima equipa italiana do avesso, voltasse aos triunfos e à hegemonia.
Ao contrário de Hamilton, que perdeu para Jenson Button ou para Nico Rosberg, o alemão vulgarizou sempre os seus colegas de equipa.

Se acreditarmos que só há campeões absolutos com uma certa dose de caneladas debaixo da mesa, Schumacher vence Hamilton nas calmas.
Mas também o bate numa determinação inumana que ou Hamilton nunca teve ou precisou, porque o material com que competia, fosse o carro, o motor ou os pneus, sempre foram de excelência.

Até meio deste ano, igualar Schumacher era um sussurro. O domínio contínuo de Hamilton no Mercedes com motor Mercedes híbrido ao longo destes anos indiciava o que vivemos agora, mas o recorde do alemão pareceu tão imbatível como parece hoje a hegemonia de Ronaldo na seleção portuguesa. A dada altura, ali no seu segundo título mundial pela Ferrari, Schumacher era maior do que o desporto. Era certamente maior do que Hamilton é hoje, se aplicarmos essa escala tão humana quanto rigorosa que é a impressão que temos das coisas. Para todos os efeitos, o reinado do alemão pareceu mais dominante, mais ditatorial, ele era mais temido, mais distante de fosse quem fosse o seu eventual sucessor ou rival, mais inalcançável, digam os resultados o que disserem. Para quem não o apreciava particularmente, era uma chatice.

Hoje, os detratores de Hamilton apontam a superioridade brutal do seu carro como fator crítico de sucesso, sendo acertado dizer que os vários Ferrari de Schumacher nunca foram tão marcadamente superiores aos Williams, McLaren ou Renault. Para ganhar, o rude Schumi era desavergonhado e bem mais impiedoso do que Hamilton alguma vez foi e não via nenhum inconveniente que os seus colegas de equipa recebessem ordens para o deixar passar em cima da linha da meta, só para garantir dois ou três pontos a mais.
Hamilton, que nunca teve alcunha ou cognome, o que é um indicador de qualquer coisa, é mais sensível e delicado e não só chegou lá como ultrapassou o alemão em vários dos indicadores que recheiam as conversas sobre Fórmula 1.

Mais clínico e limpo, mais entendedor do que o seu automóvel pode conseguir, os sete campeonatos de Hamilton comparam com um Schumacher mais capaz mais de extrair água das pedras, mais vidrado e mais impiedoso.

Uma coisa é segura: mesmo com sete campeonatos, nenhum chega ao titulo de Senna como campeão do coração da Fórmula 1.