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Opinião

Deixa-te andar, Zlatan

Saber andar tem que se lhe diga, porque muito se diz através da forma como se o faz. O porte, a estatura, a pose, a posição e o movimento dos braços e dos ombros e das pernas, e o ângulo dos olhos em relação ao chão - tudo isto obedece a um conjunto de códigos não escritos que se traduzem em segurança ou falta dela. E ninguém anda como Ibrahimovic

Pedro Candeias

Tom Jenkins

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Muito já se escreveu sobre os benefícios de andar, como um acto isolado ou por oposição a correr. Alguns estudos científicos comprovam que a caminhada favorece as sinapses que ocorrem no cérebro, estimulando criatividade e por isso ideias; outros, atestam que a ausência da pressa permite que corpo e espírito estejam de acordo, digamos, à mesma velocidade, por mais kitsch que isto pareça.

Nietzsche abordou o tema, Kant e Thoreau também, e o escritor Robert Walser andou para o fim da sua vida acompanhado por Carl Seelig e as conversas entre ambos resultaram num livro. Mas este texto não é sobre as vantagens e as desvantagens de pôr um pé à frente do outro e seguir, simplesmente, seguir em frente.

Este texto é sobre Zlatan. O andar vem depois.

O grande futebolista grande

Zlatan Ibrahimovic reúne um número considerável de características que combinadas fazem dele um ícone. A primeira: Zlatan é um grande futebolista. A segunda: Zlatan é um futebolista grande. A terceira: Zlatan é um grande futebolista grande que tem também uma grande bravata a acompanhá-lo.

Ao contrário de outros, a fanfarronice do sueco é justificada dentro do campo, executando truques inconcebíveis para um tipo com físico de nadador olímpico, alto, musculado e seco, de braços e pernas compridos e flexíveis que serviriam perfeitamente como propulsores numa qualquer piscina.

O que Zlatan faz com ele, pelo contrário e de forma espantosa, é moldar-se às variadíssimas circunstâncias de um jogo de futebol: impõe os 95kg para sacudir adversários menos respeitáveis; usa os seus quase dois metros para cabecear uma bola ou amortecê-la, com o seu orgulhoso peito a dobrar-se para dentro, côncavo onde antes era convexo; estica a chuteira para o ar para receber um passe deficiente ou soltar um toque de calcanhar que resultará estatisticamente num momento YouTube; e move-se com a elegância dos predestinados, dominando o corpo como um bailarino clássico, ultrapassando os defesas que insistem em entrar ousadamente à queima-roupa sobre ele, ainda um dos melhores dribladores deste desporto.

Porque Zlatan tem 39 anos, mas conserva intacta parte substancial das suas qualidades. É normal que a resistência a velocidade de ponta tenham diminuído com a idade; é igualmente plausível que o sueco tenha de dosear o esforço como um cozinheiro faz com o sal, uma pitadinha a mais aqui, outra a menos ali, conforme o que tem pela frente.

Mas é acima de tudo inegável que Zlatan é de uma massa diferente.

A mudança

Em 2016, quando já tinha 36 anos e sofreu a lesão que esmaga carreiras, Zlatan parou sete meses; recuperou e regressou ao jogo no Manchester United, seguiu depois para um exílio dourado nos EUA, onde o mais natural seria vê-lo abdicar das pressões europeias e encaminhar-se tranquilamente para o fim, como um pistoleiro faz-de-conta, com um pôr-do-sol e um genérico musicado.

Bom, Zlatan fez precisamente o contrário.

Foi para LA, exigiu de LA e saiu de LA, foi por vezes colérico, outras vezes insuportável ou só irónico, mas teve sempre uma graça danada. Porque há algo realmente desconcertante em Zlatan; nunca saberemos se tudo o que ele diz é para ser levado a sério, ou se é ele a alimentar a narrativa que o acompanha desde o início e que é mais ou menos assim resumida: “eu sou o Zlatan, eu sou o maior”.

Quem arrisca, como ele arrisca, arrisca-se a ser engolido pelas próprias palavras com o tempo; tornar-se ele próprio a caricatura da sua caricatura, misturando uma na outra até se tornar impossível distingui-las – até nada restar para contar a não ser o ridículo que é ver um homem ultrapassado, bem para lá do seu prazo de validade, continuar a comportar-se como uma diva sem nada que legitime estas atitudes.

A Zlatan poder-lhe-ia ter acontecido tal e qual quando decidiu regressar a Milão, em dezembro de 2019.

Disse então:
– Não vim para aqui para dançar com a mascote. Tive mais clubes interessados em mim agora do que quando tinha 28 anos.

Disse também:
– Se fores um jogador inteligente, sabes o que podes e o que não podes fazer. Em vez de correr, posso rematar ao longe.

E assim Zlatan passou a andar.

A arte

Saber andar tem que se lhe diga, porque muito se diz através da forma como se o faz. O porte, a estatura, a pose, a posição e o movimento dos braços e dos ombros e das pernas, e o ângulo dos olhos em relação ao chão – tudo isto obedece a um conjunto de códigos não escritos que se traduzem em segurança ou falta dela.

Pensem, por exemplo, Sean Connery, Pierce Brosnan e o anémico Timothy Dalton em James Bond; Brad Pitt, Harrison Ford e os esforçados Keanu Reeves e Mark Hamill; Michelle Pfeiffer e Charlize Theron contra quaisquer outras atrizes. Andar é uma arte que ocupa o espaço desocupado e quem a domina normalmente apresenta a confiança que o preenche, deixando pouco ar aos outros.

Não é uma apropriação hostil; talvez seja apenas a forma como as coisas estão organizadas entre nós, na medida em que algum fulano chega a uma sala e esta é imediatamente sua, num acordo silencioso entre todos que antecede a transferência deste poder oculto e impalpável.

Também chamam a isto carisma.

Se repararem, ninguém anda como Zlatan – e, nesta fase, ele anda muito, mesmo muito. Fá-lo com um desdém resoluto, e propositado, como que a fazer ver aos outros que ele está por ali e que estará sempre por ali e que a qualquer momento irá desferir o inevitável golpe de misericórdia, como um matador que se desvia do animal com um requebrar de anca antes da estocada.

Esta época, o sueco já marcou 11 golos em 10 jogos pelo renascido AC Milan; este ano, são 22 golos em 30 jogos, pelo que chamar-lhe velho é uma bala disparada que fará ricochete. Os últimos dois golos foram marcados ao Nápoles, em Nápoles, num cabeceamento brilhante à entrada da área, apertado pelo excelente Koulibaly, e num vólei executado com a coxa ao segundo poste.

Zlatan andou por onde quis, à esquerda e ao centro e menos à direita, com as costas direitas como uma parede, os ombros puxados para trás, os passos seguros e lentos a pisar territórios escondidos para descansar antes de entrar em ação.

Com a idade, deixou-se de sprints e malabarismos desnecessários – só ocasionalmente os faz, para nos recordar quem é – e, tal como Cristiano, concentrou-se no plano de jogo fundamental: marcar. O rácio jogos disputados/golos feitos é notável desde 2011-12, época em que chegou pela primeira vez ao AC Milan, com algumas quebras, como a passagem pelo Manchester United: são 295 golos em 360 jogos.

Nesta fase, os adversários, todos os adversários, pressentem nele aquela autoconfiança temível que os seus colegas depois abraçam a cada golo, ele de braços esticados para o céu e de queixo levantado à espera da consagração.

Como um semi-deus grego, arrogante, perverso e implacável, sem pressa.