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João Paulo Vilas-Boas

João Paulo Vilas-Boas

Vogal Comissão Executiva COP

Viva o Desporto Português, apesar de quem manda!

Todas as sextas-feiras, a Tribuna Expresso publica uma opinião em parceria com o Comité Olímpico de Portugal, sobre o universo desportivo no nosso país. Hoje, escreve João Paulo Vilas-Boas, vogal da Comissão Executiva do COP

João Paulo Vilas-Boas

Steve Wobser

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Sentei-me a escrever estas linhas depois de assistir, televisivamente, à vitória de um português (Miguel Oliveira) num grande prémio de Motociclismo. Mais ainda: pude assistir a uma vitória total (“barba bigode e cabelo”, como se diz na gíria, depois da pole position, volta mais rápida e vitória) num circuito elogiado por todos, desde o Moto GP à F1 – um circuito português! – com o troféu de primeiro classificado entregue por outro português: Jorge Viegas, o elogiado presidente da Federação Internacional de Motociclismo. Sobrou a “ilusão” de que o Desporto Português transpira saúde! Nem que fosse só o motorizado, depois dos títulos mundiais de António Félix da Costa na Fórmula E e de Filipe Albuquerque na Resistência (LMP2).

A “ilusão” sai claramente reforçada se pensarmos no Vasco Vilaça (vice-campeão do mundo de Triatlo), nas recentes medalhas europeias do Judo e da Canoagem, no êxito do Andebol, no proverbial valor da Ginástica acrobática, na subida de rendimento da Equitação e do Surf, nos sucessos do sempre presente Atletismo, bem como nas incontornáveis conquistas das seleções de Futebol (dos vários “futebóis”). E que dizer do Ciclismo, seja de estrada, de pista ou de todo-o-terreno? Soube muito bem saborear o título de vice-campeão mundial do Tiago Ferreira, depois de, não há muito, o País ter ficado literalmente pregado à televisão a seguir, dia a dia, o João Almeida e o Rúben Guerreiro, durante o “Giro”, e o Rui Costa nas suas persistentes escapadelas na “Vuelta”, tão bem acompanhado pelos “manos” Ivo e Rui Oliveira e, claro, também pelo Nélson Oliveira e pelo Ricardo Vilela. A cereja no topo do bolo, essa, veio no velódromo de Plovdiv, que ficou marcado a verde e vermelho pelos campeões europeus Iuri Leitão e Ivo Oliveira, e pelos medalhados Rui Oliveira e Maria Martins. Fantástico!

Afinal, de um país cronicamente “adoentado”, parece emergir um desporto que, mesmo em tempos de pandemia, aparenta vitalidade, parece transpirar saúde e mostra inequívoca capacidade de vencer. Só faltou mostrá-la contra a França na Liga das Nações, mas, que diabo, esses eram os Campeões do Mundo…

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Quase me senti feliz por, num momento em que praticamente tudo nos media é triste, negativo e mórbido, poder contribuir com uma prosa em tom festivo! Mas não há bela sem senão…

Refletindo mais atentamente no momento que atravessa o Desporto Português, não posso deixar de vender a alma ao diabo e de denunciar o enorme paradoxo que, estando à vista de todos, muito poucos sublinham: ao mesmo tempo que o Desporto Português se afirma nos palcos internacionais, as suas bases, os seus alicerces, parecem ruir, nomeadamente a formação desportiva, a massificação da prática e as estruturas basilares que o sustentam: os clubes. Entre os setores sociais onde a crise pandémica se vem metamorfoseando e agigantando enquanto severa crise social e económica, o setor desportivo é, seguramente, dos mais afetados, com consequências futuras de dimensões imprevisíveis, mas seguramente alarmantes à luz dos indicadores atuais. Hoje, muitos dos clubes nacionais, sobretudo muitos dos mais pequenos (as formiguinhas da formação desportiva de base!), estão em inequívoca e irreversível falência, ao mesmo tempo que, por isso, ou talvez como causa disso, o desporto de formação está imobilizado. São mais de 50% as licenças desportivas de praticante federado perdidas no desporto português devido à pandemia, ascendendo este número, nas modalidades “de pavilhão”, a quase 80%! Os técnicos desportivos não têm “clientes” e, portanto, não têm também “ordenado”; migram, geográfica e profissionalmente (se conseguirem…), de qualquer forma despindo do seu saber e experiência o quotidiano de partilha e de formação dos jovens atletas. O que tantos anos demorou a construir, desmorona-se aos nossos olhos! Técnicos desportivos, dos melhor formados no mundo (não nos esqueçamos que as faculdades de desporto portuguesas são as que ocupam melhores classificações nos rankings mundiais específicos!), enfrentam o desespero…

A solução ou, pelo menos, a mitigação do problema passa, naturalmente, pelas medidas que o Estado (o Governo) se disponha a proporcionar ao setor, necessariamente função da importância cultural, social, educativa e higiénica que efetivamente reconheça ao desporto. E esta importância é obvia e surpreendentemente “nenhuma”! Nenhuma, dado o desinvestimento anunciado, nenhuma dada a ausência de apoios aos clubes e aos profissionais de desporto, nenhuma pela silenciosa resposta aos “gritos” responsáveis e construtivos do setor. Nenhuma, mais uma vez, em claro contraponto ao que se observa nos países desenvolvidos; e por manifesta falta de visão e apoucamento cultural dos mesmos de sempre: dos que apregoam dirigir-nos para a convergência com os melhores, mas que recorrentemente falham e falham e falham...

Pesem embora as repetidas advertências, propostas, pedidos (súplicas?) do Comité Olímpico de Portugal, do Comité Paralímpico de Portugal e da Confederação do Desporto de Portugal, o Governo (e não só!) olimpicamente ignora o desporto. Que pena! Lá se esbate, de novo, o calor e a alegria com que nos aconchegam os feitos dos nossos heróis…